O comportamento da diarista Paola Stefany Neto Cirino, de 30 anos, suspeita de latrocínio (roubo seguido de morte) de um casal de idosos em um apartamento no bairro São Pedro, na região Centro-Sul de Belo Horizonte, surpreendeu policiais e investigadores responsáveis pelo caso. Segundo o delegado João Prata, chefe da Divisão Operacional do Departamento Estadual de Investigação de Crimes contra o Patrimônio (Depatri), a mulher demonstrou frieza e dissimulação durante a reconstituição do crime. As informações foram repassadas durante coletiva nesta terça-feira (14).
O delegado afirmou que a suspeita apresentou versões diferentes sobre o crime durante a prisão, a reconstituição e os depoimentos prestados à polícia. “Ela demonstrou ser completamente fria e dissimulada. Uma das coisas que mais nos chocou foi quando a perita perguntou como ela teria desferido os golpes, e ela respondeu perguntando se a perita já havia matado uma galinha”, relatou.
Ainda segundo João Prata, durante a reconstituição, Paola também demonstrava preocupação com a própria aparência, especialmente com as unhas e o cabelo, enquanto descrevia a dinâmica do crime.
“Ela narra todos os fatos e lembra de tudo nitidamente. Porém, ao ser questionada sobre quem foi a primeira vítima, o porquê de ter atacado e qual foi a sequência cronológica, ela começa a dar uma de desentendida”, afirmou.
A Polícia Civil afirmou que não há dúvidas sobre a autoria do crime nem sobre a responsabilidade da investigada pelos assassinatos. Segundo o delegado, os elementos reunidos durante a investigação reforçam a imputabilidade da suspeita. “Nada disso exclui a imputabilidade. E, após a divulgação pela imprensa, várias vítimas procuraram este departamento alegando que foram vítimas dela no que tange ao uso de medicamento para deixar a pessoa mais sonolenta ou provocar apagamento, a fim de efetuar a subtração de bens”, afirmou.
Ainda conforme o delegado, a diarista alegou ter sofrido um surto apenas no momento em que cometeu os assassinatos. “Ela fala que surtou. É exatamente nesse ponto que diz que alguma voz ficou dizendo: ‘mata, mata, mata’. O surto dela é exclusivamente nessas frações do tempo, quando ela executou a senhora Clotilde e o senhor Cláudio”, relatou.
Mulher fez outras vítimas
Segundo a PCMG, Paola também é suspeita de ter dopado e roubado ao menos outros quatro clientes. No decorrer das investigações, outras pessoas compareceram à delegacia informando que também teriam sido vítimas da diarista, que dopava os clientes para cometer os roubos. “Foram contabilizados outros quatro crimes, praticados com o mesmo modo de agir, ou seja, dopando clientes”, destacou a corporação.
Parte dos itens subtraídos de um casal foram recuperados na casa da investigada e restituídos. Ao todo, os policiais recuperaram R$ 18,8 mil em dinheiro, 14 relógios, dois celulares, oito frascos de perfume, diversos acessórios (brincos, anéis, pulseiras, pingentes, cordões), 11,2 gramas de ouro fundido, dois pares de tênis, dois casacos e outras roupas.
Conclusão do inquérito
A Polícia Civil o inquérito do caso nessa segunda-feira (13). A diarista foi indiciada pelo crime de latrocínio. Além dela, outros quatro homens foram indiciados por receptação qualificada após comprarem os objetos roubados das vítimas. Após a divulgação do caso, os comerciantes procuraram a delegacia, afirmando que desconheciam a origem ilícita dos objetos. Todos devolveram os itens adquiridos e, por isso, poderão ter a pena reduzida por arrependimento posterior, conforme prevê o artigo 16 do Código Penal.
Relembre o caso
Cláudio Atala, de 75 anos, e a esposa dele, Maria Clotilde, de 76 anos, foram mortos no dia 29 de junho, dentro do apartamento em que moravam, no bairro São Pedro, em BH.
Os corpos teriam sido encontrados pelo filho do casal no dia 1º de julho, depois que ele ficou sabendo que o pai não havia aparecido no trabalho. Ao entrar no apartamento, deparou-se com os pais já sem vida no local. Segundo o boletim de ocorrência, os dois tinham ferimentos em diferentes partes do corpo, como costas, garganta, pescoço, barriga, queixo e tórax, além de sinais de defesa.
Ao investigar as câmeras de monitoramento do prédio, a Polícia Civil identificou a entrada e saída da diarista Paola Stefany Neto Cirino, de 30 anos. Equipes foram até a casa dela em Ribeirão das Neves, na Região Metropolitana de BH. Ela não foi encontrada e parentes contaram à polícia que ela teria viajado para o estado do Espírito Santo com o filho.
Além disso, de acordo com informações obtidas pelo BHAZ junto a fontes ligadas à Polícia Civil de Minas Gerais, parentes informaram que a mulher acumulava uma dívida de aproximadamente R$ 40 mil com jogos de azar online, incluindo o popular ‘Jogo do Tigrinho’. A informação ainda é apurada pela polícia e não foi confirmada oficialmente pela PC.
No local, a polícia constatou que havia uma gaveta de semijoias arrombada no apartamento e que os celulares dos idosos foram roubados.
Suspeita dopou idosos
Paola teria sido indicada por um familiar do casal para prestar serviços na residência deles. No dia do crime, era a primeira vez da autora trabalhando no local.
Conforme a investigação, a mulher já trabalhava há muito tempo na casa desse familiar e nunca havia apresentado indícios de má índole ou de ter cometido outros crimes na residência dele. Segundo a Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG), não há suspeitas de que o familiar estaria envolvido no crime, uma vez que ele estaria profundamente abalado com a situação.
A mulher confessou que colocou quatro comprimidos no suco de Maria e de Cláudio. Após isso, ela desferiu mais de 40 golpes de faca contra o idoso e 17 contra a idosa. A polícia suspeita que o idoso tenha reagido e, por isso, teria tomado mais golpes de faca que a esposa dele.
Roubo
Paola foi flagrada por câmeras de segurança do condomínio, que mostraram a chegada dela às 7h30 e a saída às 15h30, nessa segunda-feira (29). Ao deixar o prédio, ela usava roupas diferentes das que chegou e levava duas bolsas grandes, sendo que uma das bolsas era de Maria Clotilde.
Além disso, a suspeita também foi flagrada descartando uma blusa com manchas de sangue. As imagens mostram o momento em que Paola joga a blusa branca, que usava ao chegar ao apartamento do casal, em uma caçamba localizada em uma rua abaixo do prédio onde o crime ocorreu.
Prisão
A suspeita foi presa na madrugada da quinta-feira, 2 de julho, em Itabira, na região Central de Minas Gerais.
Durante a prisão de Paola, a polícia apreendeu objetos do casal e R$ 18 mil em espécie, que ela adquiriu com a venda dos pertences das vítimas. Segundo as investigações, ela teria vendido os objetos roubados na Praça Sete, no Hipercentro de BH. Os itens levados incluíam relógios, joias e aparelhos celulares.
Quem era o casal
Casados há décadas, Maria Clotilde e Cláudio Atala eram figuras conhecidas no meio profissional em que atuavam e descritos pela família como pessoas ativas e queridas.
De acordo com Henrique Maciel, sobrinho do casal, Maria era dona de uma loja na capital mineira e, por muitos anos, se destacou como atleta. Já Cláudio era sócio-fundador de um escritório de advocacia no bairro Lourdes, na região Centro-Sul, onde atuava principalmente nas áreas trabalhista e empresarial. Mesmo aos 75 anos, ele continuava exercendo a profissão diariamente.
O casal era conhecido pelo espírito aventureiro e já havia viajado por diversos países. Recentemente, eles haviam retornado de uma viagem aos Estados Unidos. Segundo o sobrinho Henrique Maciel, de quem eram padrinhos de casamento, os tios eram pessoas “cheias de vida” e muito próximas da família. O casal morava na rua Padre Severino há cerca de 20 anos.
A trajetória dos dois também foi marcada por uma perda dolorosa em 2006, quando a filha deles, triatleta, morreu vítima de um atropelamento. Desde então, eles tinham apenas um filho, que também é advogado e trabalha no escritório fundado pelo pai.










