Quem cresceu em Belo Horizonte nos anos 1990 e 2000 provavelmente foi marcado pelas propagandas das lojas Lua de Mel e Bordados da Dinha, que ultrapassaram o tempo de exibição e viraram parte da memória afetiva da cidade. Anos depois, os protagonistas desses comerciais seguiram caminhos bem diferentes, mas ainda convivem com o reconhecimento (veja vídeos abaixo).
A propaganda da Lua de Mel (conhecida hoje como Panelão Mineiro) ficou conhecida pelo jingle chiclete e pelas cenas inusitadas: crianças “acordando” dentro de panelas, pulando delas e, no fim, saindo da loja com produtos nas mãos, enquanto cantavam “Levanta Maria, acorda Manuel…”. A ideia era simples, mas funcionava: misturava humor, repetição e um cenário todo azul, que quase parecia um sonho, para divulgar utensílios domésticos.
Uma dessas crianças era Laila Aparecida Marciel Trigueiro. Hoje ela tem 40 anos e é técnica em enfermagem. Ela lembra que tudo aconteceu por acaso. Um profissional ligado à produção viu sua desenvoltura no bairro e a chamou para o teste.
“Eles queriam alguém que pulasse da panela, e as outras crianças não conseguiam. Eu fui e deu certo”, conta. As gravações duraram dois dias e exigiram várias tentativas, além de ajustes como troca de roupa para destacar melhor na cena. No fim, até a saída dançando da loja foi improvisada. “A gente começou a dançar e resolveram manter”, lembra.
Na época, a repercussão foi forte no entorno dela. “Era uma festa. Todo mundo da escola, professores… falavam que tinham me visto na TV”, diz. Apesar disso, o reconhecimento ficou mais restrito ao círculo próximo. Laila conta que recebeu o equivalente a um salário mínimo pela gravação, o que já era significativo. “Foi algo marcante, mas não mudou minha vida”, resume. Hoje, ela vê a propaganda como uma memória afetiva de uma geração.
Já a propaganda da Bordados da Dinha apostava em outra estratégia: repetição e bordão. Com uma batida inspirada no hip hop, o comercial mostrava um apresentador anunciando os produtos enquanto uma criança respondia sempre a mesma coisa: “R$ 5”. Não importava o item: cobertor, pano de prato ou capa de sofá, que era repetida três vezes, quase que incrédulo pelos preços.
No fim, vinha o fechamento: “Só na Bordados da Dinha. Então, venha ‘djá'”, em referência a outra propaganda da época, do famoso vidente Walter Mercado. Ele finalizava todas as suas propagandas com um “ligue já”, carregado de um forte sotaque porto-riquenho, país onde nasceu.
O rosto por trás do bordão é Lipe Colácio, hoje cantor, com 34 anos. Diferente de Laila, ele já tinha ligação com o meio artístico. Começou a cantar aos 6 anos e chamou atenção da própria família pela comunicação e desenvoltura. O próprio tio era o dono da loja, e reconheceu o talento de Lipe.
“Eu falava demais, puxava assunto com todo mundo. A ideia do comercial veio daí”, conta. Antes do famoso “R$ 5”, ele chegou a fazer versões mais tradicionais, até surgir o formato que viralizou na época.
A exibição massiva na TV fez o resto. “Passava o tempo todo, em vários canais. Ficou na cabeça do povo”, lembra. O impacto foi imediato: autógrafos na escola, reconhecimento na rua e uma visibilidade rara para a época, ainda sem redes sociais. “Os influenciadores eram os garotos-propaganda”, resume. Até hoje, ele ainda escuta o bordão, e responde quase que no automático. “Fiquei três anos em Londres, e no primeiro dia, quando voltei, fui pela primeira vez na Arena MRV. Lá gritaram ‘Bordados da Dinha?’ e eu respondi ‘R$ 5’”, conta.
Apesar do sucesso, o retorno financeiro direto foi limitado, já que o negócio era da família. Ainda assim, Lipe vê a experiência como decisiva. “Foi um empurrão para minha carreira. Eu cresci me vendo como artista mirim”, afirma. Hoje, segue na música e encara a propaganda como um marco cultural. “Virou patrimônio da cidade”, diz.
Entre panelas, jingles e preços repetidos à exaustão, as duas propagandas mostram como ideias simples podem atravessar décadas. Vender produtos podia ser o principal objetivo, mas independente dele, as campanhas ajudaram a construir um tipo de memória coletiva, dessas que surgem do nada e todo mundo completa junto.
Veja como estão
Veja como estão as crianças que protagonizaram estas propagandas dos anos 90:












