Clube-empresa pode ser ‘salvação’? E os riscos? Pesquisador aponta mitos e verdades sobre o modelo

torcedores
Times como Botafogo, Cruzeiro e Vasco se movimentam na transformação em clube-empresas (Botafogo/Divulgação/Flickr + Vinnicius Silva/Cruzeiro + Rafael Ribeiro/Vasco)

O Cruzeiro não é o único clube brasileiro que se movimenta para se tornar um clube-empresa, o que vem se mostrando uma tendência crescente no país. Atualmente, times como Vasco, Botafogo, América e Cuiabá também trabalham para isso. Mas diante da novidade e importância do assunto, é natural surgir dúvidas, especialmente de torcedores, que representam o principal patrimônio de um clube. Afinal, Sociedade Anônima do Futebol (SAF) é a “salvação”? Qual o modelo ideal? O investidor precisa ter qual perfil? Existem riscos no processo?

Para responder a esses e outros questionamentos, o BHAZ conversou com Irlan Simões, que é jornalista, pesquisador de futebol, doutorando ligado ao Laboratório de Estudos em Mídia e Esporte (LEME/UERJ), e autor do livro “Clube Empresa: abordagens críticas globais às sociedades anônimas no futebol”.

História

O pesquisador Irlan Simões apresenta um panorama de “antes e depois” da criação de clubes-empresa, que começou na Europa por determinação jurídica. “De certa forma, desde os primórdios do futebol no formato que conhecemos, na virada do século XIX para o século XX, com exceção da Inglaterra, a grande maioria dos clubes surgiu como associações civis sem fins lucrativos para os seus membros. O lucro era revertido para a associação, em tese”, explica.

Porém, isso mudou a partir das décadas de 1970 e 1980: “Via-se que o futebol gerava muito dinheiro: bilheterias, salários altos, atração de interesse de grupos de poder, que são muito comuns em sociedades ocidentais. Então, o formato civil foi questionado para essa atividade econômica do futebol, e veio a ideia de adotar acionistas, não necessariamente associados abnegados”, pontua o pesquisador.

Foi então que, segundo Irlan, os clubes europeus, por obrigação da lei, deixaram a associação e adotaram o modelo empresarial: “Transformações paulatinas ocorreram na Itália, França, Portugal e Alemanha, cada país com sua particularidade. No Brasil, optou-se por manter as associações civis, mas isso está mudando”.

Interesses do comprador

Irlan Simões julga ser crucial desconstruir a ideia de que o clube-empresa é garantia de otimismo. “O que mais se fala é que todo o futebol europeu de sucesso é formado por clube-empresa. Isso é uma meia verdade, porque os clubes não optaram, e sim foram obrigados. Afinal, o futebol de lá é maior sobretudo porque as economias dos países são mais poderosas, concentram poder, dinheiro, capacidade de investimento”, ressalta o pesquisador, que explica que, na Europa, os times foram obrigados a aderir ao modelo de clube-empresa para controlar dívidas.

O perfil de um comprador de clube pode significar algo diferente da “salvação” esperada por torcedores, conforme aponta Irlan: “Em tese, no formato empresarial, os donos teriam mais zelo, tentariam tornar a atividade mais eficiente e não fariam gastanças desenfreadas. Porém, a história do futebol mostra que isso é um mito. O comprador tem muito mais interesse em utilizar a instituição que já nasceu bem antes dele”.

Com isso, não são raros os casos em que o dono do time utiliza seu posto para outros fins além do futebolístico. “Ele percebe que é mais benéfico explorar o charme do clube para sua própria imagem, do que o ponto de vista financeiro. Os compradores procuram o capital político: explorar o marketing, projetar marcas, outros negócios, acionistas”, detalha.

Ainda segundo Irlan, há vários casos de proteção de justiça, polícia e opositores, além de exploração eleitoral e geopolítica – como é o caso do Catar, Emirados Árabes, por exemplo.

Mitos sobre o tema

Em seu livro, o pesquisador explica oito pontos que considera componentes do mito em torno do clube-empresa: Eficiência corporativa, racionalidade de mercado, atração de investimentos, liberdade da política, transparência e governança, ganho de competitividade, reversão do papel de exportador e respeito aos clientes. “Com estudo sobre o assunto, mitos podem ser derrubados”, reforça.

Futebol é deficitário

Já que o futebol movimenta bilhões, cria-se também uma ideia de que o esporte dá lucro, o que não procede, conforme pontua Irlan: “É muito complicado porque em cada país, existem os clubes que mais arrecadam, mais pelo sentido histórico e menos pela empresa. Claro que há times que dão resultados financeiros, mas a própria atividade do futebol é deficitária por natureza, dá prejuízo”.

“Para manter a competitividade alta, é preciso reverter em ganho esportivo de forma contínua. Funciona como um cassino. O futebol é baseado em fases e ele é muito inconstante para cravar com certeza. Mas o que prometem para a gente? Que o clube empresa não vai quebrar, vai ser bem gerido. Não necessariamente, os benefícios viriam”, salienta Irlan.

Existe ‘modelo ideal’ de clube-empresa?

Diante dessa tendência crescente no Brasil, qual seria o melhor modelo de clube-empresa para a realidade do país? Para Irlan Simões, é difícil cravar a resposta. “Depende de quem está à frente dele. Depende da existência dos mecanismos perfeitos para que isso aconteça. Quando há estabilidade e boa gestão, temos o exemplo do Athletico-PR. Além disso, caiu o mito de que um clube bem gerido necessariamente também acerta no futebol”, frisa.

Irlan lembrou dos dois principais times de Minas: “O Atlético está ganhando títulos e tem mais de R$ 1 bilhão de dívidas. O Cruzeiro conquistou diversos títulos nos últimos anos, mas a administração era ruim: ganhou muito porque gastava mais do que podia arrecadar. Não havia nenhum mecanismo que controlasse isso, nem externamente pela lei, nem internamente pelo sistema do clube, que é o pior de tudo. Nunca foi democrático, nunca foi fiscalizável”. 

Alguns times recorrem à SAF por causa das dívidas, mas muitos também enxergam o sistema como uma forma de subir degraus. “É o caso de América e Athletico-PR. A intenção central é ter aporte financeiro e capital externo para competir com os times maiores. Acho essa ideia ilusória porque valores de direitos de TV e patrocinadores costumam responder à quantidade de torcida que os clubes têm. Foi-se o tempo que os números de fãs oscilavam, as coisas são mais estáticas hoje. Modelo perfeito que funciona em qualquer time não existe”, defende.

Dívidas e clubes falidos

A transformação de clubes em empresa está ganhando cada vez mais força no Brasil em decorrência da situação delicada de muitos clubes de grande porte, com dívidas imensas. “O Brasil é um país de tradição autoritária, extremamente elitizado. Nos clubes, os sistemas são extremamente fechados e não funcionam exatamente como associações. Os times definem presidências com votos de cerca de 500 pessoas, enquanto nos clubes da Europa, esse processo ocorre com cerca de 25 mil, por exemplo”, afirma Irlan.

Irlan também dá exemplos de times europeus em situações delicadas. “Na Itália, existem mais de 50 clubes falidos. Na Espanha, 40 clubes já entraram em concurso de credores, o que alguns brasileiros também querem fazer. Lá na Espanha, as dívidas foram zeradas no início, mas após 30 anos, isso aconteceu. Na Inglaterra, os clubes estão sendo passados de um dono ao outro por ‘1 libra’, porque o que está sendo vendido é um bolo de dívidas. Como lidar caso isso aconteça aqui no Brasil? Ninguém está discutindo”, avisou.

Única solução?

Para Irlan, a SAF não é a única solução para melhorar a administração de um clube. O pesquisador aponta outras possibilidades que, segundo ele, nunca aconteceram no Brasil: “Reformar os clubes, democratizar, torná-los mais profissionais, transparentes, criar estatutos com critérios mais claros de governança, com controle interno e externo, reformar a lei, exigir responsabilidade fiscal dos dirigentes”.

O pesquisador alerta para o outro lado da situação: “Atualmente, tratam como se só tivesse uma solução: vira empresa, e a lei vai garantir tudo. Na verdade, os clubes podem ir à falência e ser abandonados por proprietários, como já aconteceu outras vezes, inclusive com o Bahia. A própria lógica mostra uma coisa muito distinta”.

‘É fácil brincar com o sonho do torcedor’

Ainda há uma certa fantasia em torno do assunto, de acordo com Irlan. “A ideia de um investidor no clube é muito sedutora. Todo torcedor tem direito de sonhar com craques, taças, goleadas no rival, mas a tomada de decisões precisa ser mais séria que o sonho”, argumenta.

O pesquisador ainda alerta: “É muito fácil brincar com o sonho do torcedor do Cruzeiro, ainda mais agora que o rival [Atlético] está ganhando com base em direito de mecenas. Os clubes precisam estar preparados para todo tipo de problema. Muita gente não sabe que o Vitória e o Bahia foram SAF há alguns anos e ambas as iniciativas deram errado”.

“Entendo o desespero e sabemos que a estrutura fechada do Cruzeiro gerou as dívidas, mas o problema é resultado de décadas de falta de legislação. Além disso, clubes-empresas fecham, não são um mar de rosas, muitos problemas podem vir. A solução não passa necessariamente por entregar tudo de uma vez”, aponta Irlan, que ainda ressalta: “A SAF pode ser uma solução, mas não é a solução em si, e sim um meio possível de transformar o clube em algo melhor no futuro”.

Edição: Giovanna Fávero
Beatriz Kalil Otherobeatriz.othero@bhaz.com.br

Graduanda em jornalismo pela UFMG e fascinada por futebol, dentro e fora das quatro linhas. Cobre esportes para o BHAZ. Participou de reportagens premiadas pela CDL/BH em 2021 e 2022. Também produziu reportagens premiadas pela Rede de Rádios Universitárias do Brasil em 2020.

Comentários