‘Flurona’ é mais grave? Como tratar? Veja o que se sabe até agora sobre a coinfecção por Covid e gripe

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Até o momento, Minas contabiliza 14 casos da coinfecção (Roque de Sá/Agência Senado)

Nas últimas semanas, um novo termo invadiu o vocabulário brasileiro e, desde então, tem despertado muitas dúvidas. Trata-se da “Flurona”, jargão que mistura os termos “flu” (gripe, em inglês) e “rona” (de coronavírus) e é utilizado para definir a coinfecção pelos vírus da Influenza e da Covid-19. O primeiro caso em Belo Horizonte foi confirmado hoje (11), pouco depois do “surgimento” da Flurona no mundo fez crescer a preocupação.

O primeiro caso dessa infecção simultânea foi registrado em dezembro do ano passado, em Israel, e neste início de 2022 as notificações têm sido frequentes. Segundo a SES-MG (Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais), o estado já notificou 14 casos da Flurona – um deles em Belo Horizonte.

Mas afinal, a coinfecção representa mais risco aos pacientes? Como tratar e, acima de tudo, como prevenir a Flurona? Sobre o assunto, o BHAZ conversou com dois médicos infectologistas que explicaram que não há motivo para alarde. Confira o que se sabe sobre a infecção dupla até agora.

‘É muito comum’

“Coinfecção é muito comum. Ela acontece quando dois microorganismos ‘invasores’ infectam um mesmo organismo. Ela pode acontecer pelo mesmo tipo de via de infecção, como no caso da Covid e da gripe, mas poderia muito bem ser uma coinfecção de gripe com dengue, entre outras coisas”, explica o infectologista Leandro Curi.

Já o infectologista Luis Gustavo Santos ressalta que a Flurona não se trata de um vírus novo. Ela é apenas a contaminação simultânea pelo coronavírus e pelo H3N2. “São duas doenças que se sobrepõem. Não existe um cruzamento genético dos vírus da Covid-19 com o vírus da Influenza”, esclarece.

Leandro Curi explica que ambos os vírus são contraídos pelas vias aéreas – nariz ou boca – o que pode favorecer a dupla contaminação. Além disso, o afrouxamento das medidas sanitárias que impedem tanto o avanço da Covid-19 quanto o da Influenza pode explicar o aumento de casos.

“Qual é a lógica: os dois vírus estão em alta na sociedade. Então é bem razoável de se pensar que se ambos estão em alta, em algum momentos esses dois vírus vão infectar um mesmo organismo. Então, ambientes fechados, contato próximo, aglomeração e falta de máscara, tudo isso favorece a infecção tanto de um, quanto de outro”, explica.

‘Flurona’ é mais grave?

Ainda não há comprovações científicas de que a dupla infecção por Flurona represente um risco maior de mortalidade ou transmissão. O infectologista Luis Gustavo explica que o avanço de ambas as doenças varia de acordo com o organismo de cada paciente.

“De uma forma geral, uma coinfecção sempre representa mais riscos, mas existem diversos fatores a serem levados em conta, o principal deles é a vacinação. Também existem grupos que podem desenvolver essas doenças de uma forma mais grave, são aqueles grupos de risco que a gente já conhece: pessoas com comorbidade, gestantes e pessoas acima de 60 anos”, disse ao BHAZ.

Sintomas bastante parecidos

Com a chegada das novas cepas – a H3N2 da gripe, e a ômicron, da Covid-19 -, tem ficado cada vez mais difícil diferenciar os sintomas dessas duas doenças. É que as dores de cabeça, de garganta, no corpo e febre são comuns a ambas as infecções.

“É bem provável que muita gente não testada esteja coinfectada. Tem gente que acha que tá com gripe, tem gente que acha que tá com Covid-19, às vezes tá com as duas coisas. Porque além da via de infecção ser a mesma, os sintomas também são parecidíssimos”, pondera Curi.

“Com a ômicron, que tá virando prevalente na nossa sociedade, a gente não tem mais aqueles sintomas clássicos, antigos, da falta de olfato, paladar, mal-estar geral. A pessoa tem sintomas muito parecidos com uma síndrome gripal, e a Influenza também”, acrescenta.

Melhor saída? Vacina

Belo Horizonte notificou hoje (11) o primeiro caso de Flurona. Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, trata-se de um homem de 60 anos que apresentou um quadro clínico leve, sem necessidade de internação.

Leandro Curi reforça que a principal forma de prevenir possíveis complicações é se imunizando. Mesmo que a atual vacina da gripe não garanta 100% de imunização contra o H3N2, ela pode ser uma barreira importante para impedir o agravamento da doença, conforme aponta o especialista.

“A chance de contaminação nos dois casos pra quem é vacinado é bem menor, a chance de piora clínica é bem menor em quem tá vacinado e a chance de transmitir também. Se essa conjuntura do Flurona fosse nesse mesmo mês, mas no ano passado, o número de óbitos e internações seria absolutamente maior”, analisa.

Cenários paralelos

De acordo com o Boletim Epidemiológico divulgado nesta terça-feira pela PBH (Prefeitura de Belo Horizonte), a capital está com 70,9% dos 625 leitos de enfermaria ocupados. Já a ocupação das UTIs, tanto na rede pública, quanto na privada, está em 67.6%. A transmissão da doença também permanece no nível de risco intermediário, em 1,13.

Embora os vírus da Covid-19 e da gripe possam contaminar um mesmo indivíduo, o cenário epidemiológico das duas doenças coexistem de forma paralela. Leandro Curi explica, por exemplo, que a alta no fator Rt (número médio de transmissão por infectado) da Covid-19 em BH não tem relação com o aumento nos caso da gripe.

“Por outro lado, a presença dessas duas doenças na sociedade vai aumentar e muito a demanda por atendimento. Se eu estou com um mal-estar, não sei se é gripe e não sei se é Covid, isso vai aumentar e tem aumentado bastante a demanda de busca de atendimento médico”, pondera ele.

Boletim Epidemiológico divulgado pela Secretaria Municipal de Saúde nesta terça-feira (Reprodução/PBH)

Flurona em Minas

Os dois primeiros casos de Flurona em Minas foram notificados no município de Poço Fundo, na região Sul de Minas, no último dia 5. De lá pra cá, o estado já confirmou outros 14 casos, sendo cinco em Juiz de Fora, na Zona da Mata, e os demais em Belo Horizonte, Ipatinga, Itamonte, Monte Carmelo, São Lourenço e Uberlândia, com um registro cada.

Em nota enviada ao BHAZ, a SES-MG reforça que “não foram notificados óbitos associados aos casos reportados”. “A SES-MG acompanha a evolução dos casos e aguarda orientações técnicas do Ministério da Saúde para conclusão da investigação”, disse (leia na íntegra abaixo).

A secretaria esclarece ainda que “antes da pandemia de Covid-19, não era raro haver a detecção laboratorial simultânea do Influenza e outros vírus respiratórios (vírus sincicial, rinovírus, dentre outros), conforme observado na rotina da Vigilância Sentinela da Síndrome Gripal”.

Nota da SES-MG na íntegra

“A Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG) informa que, até o dia 11/1, foram reportados ao Centro de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde do Estado de Minas Gerais (CIEVS-MG) 14 (quatorze) casos com detecção laboratorial de coinfecção por SARS-CoV-2 e Influenza em Minas Gerais.

Os casos foram informados por nove municípios: Araxá (1), Belo Horizonte (1) Ipatinga (1), Itamonte (1), Juiz de Fora (5), Monte Carmelo (1), Poço Fundo (2), São Lourenço (1) e Uberlândia (1).

Não foram notificados óbitos associados aos casos reportados. A SES-MG acompanha a evolução dos casos e aguarda orientações técnicas do Ministério da Saúde para conclusão da investigação. No momento não há outros casos reportados em análise.

A Secretaria esclarece ainda que, antes da pandemia de covid-19, não era raro haver a detecção laboratorial simultânea do Influenza e outros vírus respiratórios (vírus sincicial, rinovírus, dentre outros), conforme observado na rotina da Vigilância Sentinela da Síndrome Gripal (SG).

Muitos dos vírus respiratórios compartilham não apenas da mesma sazonalidade, mas de vias de transmissão semelhantes, logo, a exposição simultânea a dois agentes distintos pode ocorrer ao mesmo tempo ou em momentos muito próximos, causando uma coinfecção.

No contexto da pandemia da covid-19, começaram a ser identificados os primeiros casos de coinfecção causadas pelos vírus Influenza e SARS-CoV-2 no Brasil, em um momento em que a circulação de ambos se mostra intensa. As implicações dessa coinfecção específica entre Influenza e SARS-CoV-2, como quadro clínico, gravidade, duração e complicações, ainda estão sendo estudadas ao redor do mundo.

Por fim, a SES-MG ressalta a importância de se manter os protocolos sanitários tanto para covid-19 quanto para influenza: lavagem constante das mãos, uso de máscara, distanciamento social e vacinação”.

Edição: Giovanna Fávero
Larissa Reislarissa.reis@bhaz.com.br

Graduada em jornalismo pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e repórter do BHAZ desde 2021. Vencedora do 13° Prêmio Jovem Jornalista Fernando Pacheco Jordão, idealizado pelo Instituto Vladimir Herzog.

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