Após denúncia, Milton Ribeiro pede exoneração do Ministério da Educação

Milton Ribeiro
Pastor encaminhou uma carta ao presidente Jair Bolsonaro (Isac Nóbrega/PR)

O pastor Milton Ribeiro cedeu à pressão e encaminhou uma carta ao presidente Jair Bolsonaro (PL) pedindo demissão do cargo de ministro da Educação, nesta segunda-feira (28). A decisão veio após a Folha de S. Paulo divulgar áudio em que Ribeiro afirma que repassa verbas a municípios indicados por dois pastores, a pedido do chefe do Executivo.

Na carta, ele diz que o afastamento é decorrente de sua responsabilidade política, mas que ele não vai se despedir, e sim apenas dizer um “até breve”. Milton Ribeiro ainda garante que não participou de condutas irregulares durante sua gestão da pasta.

“Tenho plena convicção que jamais realizei um único ato de gestão na minha pasta que não fosse pautado pela correção, pela probidade e pelo compromisso com o erário. As suspeitas de que uma pessoa, próxima a mim, poderia estar cometendo atos irregulares devem ser investigadas com profundidade”, diz trecho do documento divulgado pelo jornal O Globo.

Ribeiro afirma que o pedido de exoneração serve para que não haja incertezas sobre sua conduta no cargo. “Meu afastamento do cargo de ministro visa também deixar claro que quero, mais que ninguém, uma investigação completa e longe de qualquer dúvida acerca de tentativas deste Ministro de Estado de interferir nas investigações”, completa.

Pastores no MEC

Em gravação publicada pela Folha na última segunda-feira (21), o ministro diz que o governo federal prioriza prefeituras cujos pedidos de liberação de verba foram negociados por dois pastores específicos. Os líderes religiosos não têm cargo e, segundo a reportagem, atuam em um esquema informal de obtenção de verbas do Ministério da Educação.

“Porque a minha prioridade é atender primeiro os municípios que mais precisam e, segundo, atender a todos os que são amigos do pastor Gilmar”, diz o ministro na conversa, da qual participaram prefeitos e os dois pastores.

“Foi um pedido especial que o presidente da República fez para mim sobre a questão do [pastor] Gilmar. Então o apoio que a gente pede não é segredo, isso pode ser [inaudível]. É apoio sobre construção das igrejas”, completa Milton Ribeiro no áudio divulgado.

Ainda conforme o jornal, os pastores Gilmar Santos e Arilton Moura têm negociado com prefeituras a liberação de recursos federais para obras de creches, escolas, quadras ou para compra de equipamentos de tecnologia. Isso estaria ocorrendo, pelo menos, desde janeiro de 2021. Os recursos são geridos pelo FNDE (Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação).

Na ocasião, o ministro se defendeu e afirmou que que “não há nenhuma possibilidade de determinar alocação de recursos para favorecer ou desfavorecer qualquer município ou estado”.

Depois da denúncia, a Polícia Federal instaurou inquérito para apurar o caso, a pedido da Procuradoria Geral da República. A bancada evangélica no Congresso Nacional também passou a fazer pressão, exigindo a saída de Milton Ribeiro do cargo.

Carta na íntegra

Desde o dia 21 de março minha vida sofreu uma grande transformação. A partir de notícias veiculadas na mídia foram levantadas suspeitas acerca da conduta de pessoas que possuíam proximidade com o Ministro da Educação.

Tenho plena convicção que jamais realizei um único ato de gestão na minha pasta que não fosse pautado pela correção, pela probidade e pelo compromisso com o erário. As suspeitas de que uma pessoa, próxima a mim, poderia estar cometendo atos irregulares devem ser investigadas com profundidade.

Eu mesmo, quando tive conhecimento de denúncia acerca desta pessoa,  em agosto de 2021, encaminhei expediente a CGU para que a Controladoria pudesse apurar a situação narrada em duas denúncias recebidas em meu gabinete. Mais recentemente, em ___, solicitei a CGU que audite as liberações de recursos de obras do FNDE, para que não haja duvida sobre a lisura dos processos conduzidos bem como da ausência de poder decisório do ministro neste tipo de atividade.      

Tenho três pilares que me guiam: Minha honra, minha família e meu país. Além disso tenho todo respeito e gratidão ao Presidente Bolsonaro, que me deu a oportunidade de ser Ministro da Educação do Brasil.

Assim sendo, e levando-se em consideração os aspectos já citados, decidi solicitar ao Presidente Bolsonaro a minha exoneração do cargo, com a finalidade de que não paire nenhuma incerteza sobre a minha conduta e a do Governo Federal, que vem transformando este país por meio do compromisso firme da luta contra a corrupção.

Não quero deixar uma objeção sequer quanto ao meu comportamento, que sempre se baseou em pilares inquebrantáveis de honra, família e pátria. Meu afastamento do cargo de Ministro, a partir da minha exoneração, visa também deixar claro que quero, mais que ninguém, uma investigação completa e longe de qualquer dúvida acerca de tentativas deste Ministro de Estado de interferir nas investigações.

Tomo esta iniciativa com o coração partido, de um inocente que quer mostrar a todo o custo a verdade das coisas, porém que sabe que a verdade requer tempo. Sei de minha responsabilidade política, que muito se difere da jurídica. Meu afastamento é única e exclusivamente decorrente de minha responsabilidade política, que exige de mim um senso de país maior que quaisquer sentimentos pessoais.

Assim sendo, não me despedirei, direi um até breve, pois depois de demonstrada minha inocência estarei de volta, para ajudar meu país e o Presidente Bolsonaro na sua difícil mas vitoriosa caminhada.

Brasil acima de tudo!!! Deus acima de todos!!!”.

Edição: Giovanna Fávero
Sofia Leãosofia.leao@bhaz.com.br

Repórter do BHAZ desde 2019 e graduanda em jornalismo pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais). Participou de reportagens premiadas pelo Prêmio Cláudio Weber Abramo de Jornalismo de Dados, pela CDL/BH e pelo Prêmio Sebrae de Jornalismo em 2021.

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