Eleições 2022: Bolsonaro cresce com ‘vale-tudo eleitoral’; Lula aposta na articulação

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A pesquisa mostra, além disso, uma melhora na imagem do governo Bolsonaro (Ricardo Stuckert/Lula + Marcos Corrêa/PR)

A 60 dias da eleição, os esforços de Jair Bolsonaro (PL) começam a dar sinais nas pesquisas. Não é o suficiente até o momento para que ele se eleja, mas já podemos cravar que as variações para cima, dentro da margem de erro, desenham para o atual momento uma tendência de crescimento de sua candidatura.

De acordo com a pesquisa Genial/Quaest divulgada na última quarta-feira (3), o ex-presidente Lula (PT) segue liderando a ocorrida, com 44% das intenções de voto no primeiro turno, enquanto o presidente Jair Bolsonaro (PL) tem 32%. Bolsonaro soma com os demais candidatos 42% dos votos. Com essa porcentagem, é impossível cravar a vitória do petista no primeiro turno, embora essa possibilidade continue no horizonte, já que Lula e a soma dos demais candidatos estão empatados dentro da margem de erro, que é de 2%.

O desenho da tendência de alta de Bolsonaro pode, no entanto, ser captado pela série histórica de levantamentos da Quaest. Se compararmos com a pesquisa realizada em janeiro, Lula oscilou de 45% para 44% das intenções, dentro da margem de erro. Já Bolsonaro subiu nove pontos, passando de 23% para 32%.

PEC do Estado de emergência

A PEC do Estado de Emergência, aprovada em junho, é apenas um dos exemplos que a campanha do atual presidente já partiu para o vale-tudo, mas tem angariado resultados. Resultados, aliás, que começaram a aparecer nas pesquisas antes mesmo de o dinheiro entrar no bolso dos brasileiros.

De acordo com a pesquisa Genial/Quaest divulgada hoje, os resultados entre pessoas que recebem o Auxílio Brasil estão se alterando bem rapidamente. Lula tinha 62% das intenções desse eleitorado em julho e aparece, no último levantamento, com 52%. Bolsonaro subiu 2 pontos (27% para 29%). A variação de Bolsonaro encontra-se dentro da margem de erro, mas para onde foram os apoiadores de Lula?

A reprovação de Bolsonaro neste grupo também caiu. Em junho, a distância entre a avaliação negativa e a avaliação positiva era de 27%; em agosto, a diferença caiu pra 11%. Não houve mudança entre quem não recebe o benefício.

A pesquisa mostra, além disso, uma melhora na imagem do governo Bolsonaro. O presidente agora tem 27% (+1) de avaliação positiva e 43% (-4) de avaliação negativa. Bolsonaro recebe, desta forma, o menor nível de rejeição ao governo desde que a pesquisa começou a ser feita em julho de 2021.

Evangélicos

A religião parece ser um fator decisivo nessas eleições, particularmente o voto evangélico. Uma pesquisa de do instituto Datafolha de 2020 mostrou que o percentual de evangélicos pode estar próximo a 31% do total da população, enquanto o percentual de católicos é próximo a 50% da população total.

A distância de Lula e Bolsonaro permanece a mesma entre os católicos, mas aumenta a cada mês entre os evangélicos. Em abril, Bolsonaro tinha 38% e Lula 34%. Em agosto, essa diferença saltou para 19 pontos (48% a 29%).

A proximidade de Bolsonaro com lideranças evangélicas é bastante conhecida, assim como é notória a dificuldade do PT de se aproximar desse seguimento. E diga-se de passagem: a campanha promovida por lideranças evangélicas pode ter relevância na queda do eleitorado do petista entre aqueles que recebem o Auxílio Brasil.

Os evangélicos tiveram papel preponderante nas eleições de 2018. No entanto, a comunicação de Lula, até o momento, não tem investido nesse nicho. Talvez por identificar a dificuldade de reverter o cenário nesse nicho.

Bolsonaro, por sua vez, conforme apuração da Agência Publica, destinou até 2020, cerca de 38 milhões para rádios e TVs de pastores que apoiam Bolsonaro. A quantia, sozinha, corresponde a cerca de 10% do orçamento anual da Secretaria de Comunicação do governo.

Em estratégia mais recente, a jornalista da CNN Renata Agostini, apurou que estão previstas entradas online do presidente nas cerimônias religiosas, com direito a saudações por vídeo ao vivo. Parece pouco, mas, para a campanha de Bolsonaro, é importantíssimo evitar que Lula tenha qualquer tipo de acesso à base evangélica.

Preocupação com a economia vem caindo

Na série histórica das pesquisas Genial/Quaest deste ano, a preocupação com a economia teve um pico no mês de março, quando atingiu 51%. A preocupação com a inflação, por sua vez, é a menor desde março, atingindo 16% da população.

Existe um fator chave que ajuda a explicar a mudança das pautas que a população considera críticos na situação do Brasil: é a estipulação de cobrança limite do ICMS aplicada pelo governo federal. A medida resultou em queda do preço dos combustíveis, especialmente da gasolina e do etanol.

Esse ponto vinha sendo explorado pela oposição de maneira geral, mas por ora, perdeu um pouco de sentido. De fato, a população vem sentindo menos no bolso. O que essa medida vai acabar ensejando para a situação nos estados, é problema para os próximos governadores.

E Lula?

A campanha de Lula tem se esforçado na articulação política. O objetivo parece ser fazer com o que o maior número de presidenciáveis possível apoie a candidatura de Lula no primeiro turno.

A intenção é evidente: tentar obter a quantidade de votos necessária para fechar a fatura em 2 de outubro.

Parcela do MDB apoia Lula, mas isso não foi o bastante para impedir a candidatura de Simone Tebet.

Lula também investiu contra a candidatura de Luciano Bivar, que acabou saindo do páreo, mas isso não foi o suficiente para impedir que o União Brasil desista de uma candidatura própria. O partido lançou a senadora Soraya Thronicke, do Mato Grosso, como candidata.

O último investimento foi na candidatura do PROS. O apoio da legenda a Lula chegou a ser anunciado na última quarta-feira (3), mas sofreu uma reviravolta hoje.

Ocorre que a direção do partido encontra-se em disputa judicial. O ex- dirigente, Eurípedes Junior, favorável ao apoio ao PT, havia voltado ao comando do PROS no último domingo, abrindo espaço para negociações por decisão do STJ. No entanto, nesta quinta-feira (5), o adversário de Eurípedes, Marcus Holanda, retirou o apoio ao PT, mantendo a candidatura do coach Pablo Marçal.

A que conversa que parece estar mais fluida é com o candidato a presidente pelo Avante, André Janones. O candidato tem pautas sociais coincidentes às do PT e permanece em diálogo com o ex-presidente.

O PT de Lula ainda enfrenta problemas com aliados históricos, como é o caso do PSB. No Rio de Janeiro, estado em que os petistas chegaram a anunciar a retirada do apoio à candidatura de pessebista Marcelo Freixo, a pendenga gira em nome do nome do candidato ao senado. O PSB apresentou Alessandro Molon, enquanto o PT prefere o nome de André Ceciliano, presidente da Alerj filiado ao Partido dos Trabalhadores.

Situação pode não estar consolidada

A larga dianteira de Lula nas pesquisas, por enquanto, deixa margem para o candidato burilar sua campanha e buscar o maior número de apoios possível. Por enquanto. Mas é aconselhável que ele tome cuidado. Já a algum tempo, Lula vem caindo dentro da margem de erro nas pesquisas, a campanha de rádio e TV começa em 10 dias e a possibilidade de vitória no 1° turno, embora ainda exista, está se afastando a cada mês.

Ou seja, Bolsonaro continua bem atrás do petista na corrida eleitoral, mas tem jogado com tudo, inclusive fazendo uso de lances absolutamente desleais. O atual presidente tem a máquina do governo e tem feito uso dela em plena luz do dia para se cacifar nas pesquisas.

Lula ainda está tentando organizar o time.

Pedro Munhozpedro.munhoz@bhaz.com.br

Editor de Política do BHAZ. Graduado em Direito pela Faculdade Milton Campos e em História pela UFMG, trabalhou como articulista de política no BHAZ entre 2012 e 2013. Atuou como assessor parlamentar desde 2016, com passagens pela Câmara dos Deputados, Câmara Municipal de Belo Horizonte e Assembleia Legislativa de Minas Gerais.

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