A primavera de 2026 no Hemisfério Sul começa no dia 22 de setembro, às 21h05, e termina em 21 de dezembro, às 18h50. Segundo a Nota Técnica Conjunta divulgada pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), a estação deve ser marcada por dois fenômenos que vão se combinar ao longo do trimestre: o aquecimento associado a um El Niño classificado como “muito forte” e uma distribuição bastante desigual das chuvas pelo país.
De acordo com o boletim, as temperaturas da superfície do mar na região do Pacífico Equatorial conhecida como Niño 3.4 vêm registrando anomalias positivas desde março. Com base nesses dados, o Centro de Previsão Climática da agência americana NOAA estima em 98% a probabilidade de que as condições de El Niño se mantenham muito fortes durante todo o trimestre outubro-novembro-dezembro deste ano.
Na prática, isso significa calor acima do normal em boa parte do território nacional. O prognóstico do Inmet, produzido em conjunto com o CPTEC e a Funceme, aponta temperaturas médias acima de 28°C nas regiões Norte e Nordeste, além de pontos isolados do interior do país. Esse aquecimento, segundo a nota técnica, tende a intensificar ondas de calor e o desconforto térmico da população, aumentar a evapotranspiração e favorecer a formação rápida de tempestades severas, resultado do contraste entre o ar quente e o avanço de frentes frias.
Chuva concentrada no Centro-Sul, seca no Norte e no Nordeste
A primavera é, por definição climatológica, o período de transição entre a estação seca e a chuvosa no centro do país, quando a atmosfera intensifica o fluxo de umidade vindo da Amazônia. Mas o prognóstico deste ano mostra que esse fluxo não vai beneficiar todas as regiões da mesma forma.
No Norte, o Inmet prevê déficit de chuva em praticamente toda a região, com destaque para Roraima, o norte e o nordeste do Amazonas e o oeste e centro-sul do Pará, onde os acumulados podem ficar até 200 mm abaixo da média histórica. Só o leste do Acre, o extremo noroeste do Pará e o norte do Amapá devem registrar volumes próximos do normal para a época.
O cenário se repete no Nordeste, com predomínio de déficit de chuva na maior parte da região. O norte do Piauí e o noroeste do Ceará devem acumular menos de 100 mm no trimestre. A exceção fica por conta de um recorte do litoral leste, entre o Rio Grande do Norte e Alagoas, onde os volumes podem ficar levemente acima da média. As temperaturas, por outro lado, devem subir em toda a região, com alguns estados registrando valores até 2°C acima da média climatológica.
Já no Centro-Sul do país a tendência se inverte. Mato Grosso do Sul e o sul de Goiás e do Mato Grosso devem ter chuva acima da média, enquanto o centro-norte de Mato Grosso e o norte de Goiás devem enfrentar déficit. No Sudeste, a previsão indica possibilidade de excesso de chuva em todo o estado de São Paulo, no Rio de Janeiro e no centro-sul de Minas Gerais, com desvios de até 100 mm acima do normal, ao passo que o Espírito Santo pode ter chuva irregular, com déficits de até 50 mm em boa parte do território.
A Região Sul deve ser a mais chuvosa do país na primavera. O Inmet prevê condições favoráveis a excesso de chuva em todos os três estados, com os maiores volumes esperados no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, onde os acumulados podem superar a média histórica do trimestre em até 200 mm, fruto também dos episódios de Complexos Convectivos de Mesoescala típicos da estação, associados a chuva forte, rajadas de vento, descargas elétricas e queda de granizo.
Impacto na safra 2026/27
O boletim dedica atenção especial aos efeitos do quadro climático sobre a agricultura. Com a redução das chuvas e o aumento das temperaturas no centro-norte do país, a nota técnica alerta para o aumento da demanda hídrica de plantas e animais e para a queda progressiva da umidade do solo e dos níveis dos reservatórios ao longo do trimestre. Lavouras de sequeiro (soja, milho, arroz de terras altas e feijão) devem exigir atenção redobrada nas fases de semeadura e estabelecimento inicial, enquanto culturas perenes como mandioca, banana e cacau podem sofrer redução de crescimento em caso de déficit hídrico mais prolongado.
No Nordeste, a região do Matopiba deve enfrentar os maiores desafios para o início da nova safra de grãos, por causa da irregularidade das chuvas combinada a temperaturas mais altas. Já no Centro-Oeste, os maiores acumulados de chuva devem favorecer a semeadura da soja 2026/27 em Mato Grosso do Sul e no sul de Goiás e do Mato Grosso, mas o déficit hídrico no norte desses dois últimos estados é apontado como risco para o início do ciclo da cultura.
No Sul, onde a chuva deve superar a média, o Inmet pondera que o excesso de dias chuvosos pode reduzir as janelas favoráveis ao manejo das lavouras e prejudicar a uniformidade de emergência da soja e do milho de primeira safra, além de aumentar o risco de excesso de água em áreas de arroz irrigado com drenagem deficiente.

















