20/03/2026 às 12h40 - Atualizado em 22/03/2026 às 12h41
'Fagner-Bossa Nova' entrou nas plataformas digitais no dia 6 de março. (Isabela Spindola/Divulgação)
Em 1972, o jovem Raimundo Fagner e uma turma que logo ganharia destaque na cultura nacional ocupavam o estúdio da Philips, na avenida Rio Branco, no Centro do Rio de Janeiro, sob o pretexto da gravação do ‘Disco de Bolso’, projeto da extinta revista Pasquim, que funcionava como plataforma para os novos nomes da música brasileira. O cearense se preparava para registrar sua versão de ‘Mucuripe’ – que, àquela altura, já era um fenômeno nacional na voz de Elis Regina – quando o ambiente foi tomado por uma presença inesperada.
Acompanhado de Eduardo Athayde, um outro homem entrou no estúdio, caminhou até o piano e, sem pedir licença, começou a fazer a harmonia da canção que o cantor compusera ao lado de Belchior nas madrugadas cearenses. Em entrevista ao BHAZ, Fagner afirmou que, naquela época, não sabia que o “desconhecido”, que “trazia uma harmonia lindíssima”, era, na verdade, Tom Jobim, de quem ele sequer tinha ouvido falar. Pouco mais de cinco décadas depois, o jogo inverteu: agora é o artista quem regrava algumas das canções do maestro para o álbum ‘Bossa Nova’. O projeto, que tem arranjos e produção de Roberto Menescal, outro expoente do movimento, chegou às plataformas digitais no dia 6 de março.
De acordo com Fagner, embora o projeto, lançado pela Biscoito Fino, possa ter causado, a princípio, estranhamento no público, já que a trajetória dele é fortemente associada à canção nordestina e às baladas românticas, o álbum revela o seu “lado B”. Ao se mudar para o Rio de Janeiro, no início dos anos 1970, o cearense cultivou uma relação estreita não apenas com pilares da Bossa Nova, como Vinícius de Moraes, Roberto Menescal, Nara Leão e João Gilberto, mas também com outras figuras centrais da cena, como Ronaldo Bôscoli.
“Eu quis homenagear essa galera que me ajudou no início da carreira, o Vinicius… Inclusive, terminei o álbum não colocando uma música inédita que temos juntos”, revelou o cantor, que apresentou ‘Um amor que é só meu’ somente em raras apresentações ao vivo.
‘Pagando os pecados’
Os fãs que acompanham o artista há mais tempo sabem que esta não é a primeira vez que o cearense mergulha no universo da Bossa Nova. Em 1993, ele lançou o álbum ‘Demais’ – também em parceria com Menescal –, trabalho que vendeu mais de 700 mil cópias, reunindo clássicos do “Poetinha” e de Jobim, como ‘Eu Sei que Vou te Amar’, ‘Minha Namorada’ e ‘Dindi’. O cantor, inclusive, revelou ao BHAZ que o novo projeto funciona como uma “retratação” por uma entrevista “mal-criada” que deu durante o lançamento do primeiro disco no Japão.
Vinícius de Moraes e Fagner (Reprodução/Redes Sociais)
“Falei que a Bossa Nova só funcionava lá e nos Estados Unidos. Foi uma sacanagem o que fiz e, por isso, quis me reparar. Então, é um pouco pagando os pecados e a língua. Além disso, vi que o álbum [atual] deu uma estourada e uma movimentação grande. Espero que eu pague essa língua muito distante”, comentou Fagner, entre risos.
No repertório do novo projeto, clássicos como ‘Chega de Saudade’ e ‘Águas de Março’ dividem espaço com outras canções subestimadas como ‘Tereza da Praia’ e ‘Rio’. Entretanto, o artista contou que nem tudo foi harmonia: a produção gerou um afastamento temporário entre Fagner e Roberto Menescal, amigo de longa data e primeiro diretor artístico da carreira do cearense. “Demorei muito para colocar as vozes e ele não gostou. Tivemos outros desentendimentos, o que é normal. Agora que saiu, espero mesmo que ele tenha gostado”, lamentou.
Apesar dos desentendimentos de estúdio, as divergências não diminuíram o entusiasmo dos reencontros musicais que o artista viabilizou para o projeto. Fagner descreve a gravação não somente como uma “cápsula do tempo”, mas também como um processo rodeado de momentos especiais com os amigos Marcos Valle, em ‘Samba de Verão’, e Zeca Baleiro, em ‘Tereza na Praia’. Este já dividiu o disco ‘Ao Vivo em Brasília’, lançado em 2002, com o artista cearense.
No entanto, a participação de Wanda Sá na faixa ‘Samba em Prelúdio’ foi fruto do puro acaso carioca. “Eu não a conhecia pessoalmente. Estava em um supermercado no Leblon quando vi a filha do Geraldo Azevedo com ela. A Wanda me contou que também estava produzindo um disco de Bossa Nova pela Biscoito Fino. Na hora, convidei-a para participar do meu. No dia seguinte, já estávamos no estúdio”, disse o cantor.
Fagner, Roberto Menescal e Marcos Valle. (Reprodução/Redes Sociais)Wanda de Sá e Fagner (Isabela Spindola/Divulgação)
Sob o teto de Bôscoli e Elis
Dentro desse túnel do tempo, o cearense fez questão de prestar homenagem a Bôscoli ao integrar no disco a música ‘Rio’, composição do produtor carioca e Menescal. De acordo com Fagner, o jornalista – casado na época com Elis Regina – o hospedou logo que chegou ao Rio, no início dos anos 1970. Foi, inclusive, durante essa estadia que a cantora gravou ‘Mucuripe’, canção que se tornou sucesso nacional no disco ‘Elis’, lançado em 72. O artista cearense só gravaria a faixa no ano seguinte, no seu primeiro álbum, ‘Manera, Fru Fru, Manera’ (1973).
“Foi muito emocionante ouvi-la na voz da Elis e do Roberto [Carlos], quando ele a regravou em 1975. Mas a Elis me lançou, né? Ela ensaiava em casa e cantava quatro músicas minhas no show, inclusive, outra em parceria com o Belchior. No disco mesmo, só entrou ‘Mucuripe’. Foi um trabalho lançado logo na separação dela e do Bôscoli”, relembra o cantor, que guarda o desejo de recuperar as fitas dos ensaios da cantora para projetos futuros.
Belchior e Fagner. (Athayde dos Santos / Arquivo)Fagner, Ronaldo Bôscoli, Luiz Carlos Mieli e Elis Regina no início da década de 1970. (Reprodução/Arquivo Nacional)
Essa convivência rendeu a Fagner não apenas o apadrinhamento de Bôscoli e Elis, mas também uma relação de afinidades com Jobim. O cearense explica que, se o impacto daquele primeiro encontro casual no estúdio da Philips, foi inesquecível, nada superou o último contato entre os dois, em 1994, dias antes do maestro morrer, aos 67 anos. É, por isso, que o compositor carioca também ganha reverência especial no novo disco.
“Estava na Cobal, no Leblon, lugar que o Tom gostava muito de frequentar, com outros dois amigos. Ele foi até a minha mesa e pediu licença para me tirar de lá, porque queria falar comigo. Fomos sentar e ficamos horas conversando, até ele me deixar na mesa novamente. Foi a última vez que nos vimos”, recorda.
– contou Fagner ao BHAZ
‘Nenhum artista se mantém sem um grande público’
Embora satisfeito com o resultado, o cearense explica que uma turnê dedicada ao novo álbum ainda não está nos planos. No momento,o foco é a série de shows “Muito Amor”, que reúne músicas dos mais de 50 anos de carreira e desembarca em Belo Horizonte neste sábado (21) e domingo (22), no Palácio das Artes. Ainda assim, Fagner deixa uma porta aberta, e das grandes. “A turnê do novo disco saiu do meu radar por enquanto, mas quem sabe faço uma gravação de DVD com orquestra? É uma ideia que pode ser trabalhada”, pondera.
De acordo com ele, mesmo com tantas décadas de estrada, o entusiasmo permanece intacto. O ritmo é de quem tem pressa, já que, desde 2020, o artista já lançou sete projetos, superando a marca de 30 álbuns de estúdio solo na carreira. A lista recente começou com ‘Serenata’ (2020) e seguiu com parcerias de peso, como ‘Naturezas’ (2022), com Renato Teixeira, e o tributo ‘Meu Parceiro Belchior’ (2022). O fôlego criativo continuou com registros sinfônicos e instrumentais, como os encontros com a Orquestra de Púlsar (2023) e o violonista Yamandu Costa (2023), além da coletânea ‘Além do Tempo’ (2023), culminando agora no balanço de ‘Bossa Nova’ (2024).
Questionado se tem algo que ainda gostaria de fazer na música, ele afirma sem hesitar: “sempre tem, e nunca falta”. Para Fagner, se manter inventivo é uma resposta ao carinho com o público que o acompanha.
“Meus fãs sempre foram maiores do que imaginei. Acho que nenhum artista se mantém sem um grande público, né? Porque é estimulante no sentido de seguir atuando. Sempre achei mágico”, finalizou o cantor.
Jornalista pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Foi estagiária do Jornal Estado de Minas e do programa Agenda da Rede Minas de Televisão. Repórter do BHAZ desde agosto de 2024.