O interesse de jovens brasileiros por carreiras nas Forças Armadas e na Polícia Militar cresceu nos últimos anos, segundo um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), do King’s College London, da Universidade Federal de Pernambuco e da Sciences Po. A pesquisa aponta uma mudança relevante na forma como essa geração enxerga as áreas de segurança e defesa.
A edição mais recente do estudo, realizado em novembro de 2025, ouviu 2.032 jovens entre 18 e 26 anos, por meio de painel eletrônico, de todas as regiões do país. Nenhum dos entrevistados possui vínculo com as Forças Armadas ou com as polícias militares. A primeira parte da pesquisa ocorreu em 2021, com metodologia equivalente.
O percentual dos que responderam “definitivamente sim” ou “provavelmente sim” saltou de 43,8% em 2021 para 55,6% em 2025. O avanço também aparece nas respostas mais assertivas: o grupo que afirma “definitivamente” querer ingressar nessas carreiras subiu de 19,9% para 30,7%.
Quem são os jovens interessados
O estudo também traça um perfil detalhado desse público. O interesse cresceu entre homens e mulheres, com leve predominância feminina (49,1% em 2021 para 51% em 2025) entre os que consideram as Forças Armadas. Na Polícia Militar, os homens seguem como maioria, ainda que por pequena margem (51,1% para 51,6%).
No recorte racial, o interesse por carreiras militares cresceu entre todos os grupos, com avanço mais acentuado entre jovens brancos. Apesar desse aumento, os não brancos seguem como maioria entre os interessados nas duas instituições. Entre jovens pretos e pardos, por exemplo, quase metade afirma considerar a carreira na Polícia Militar (49,8% e 48%, respectivamente), um cenário diferente do registrado em 2021, quando predominava o desinteresse.
Em relação à escolaridade, jovens com ensino médio representam a maior parcela dos interessados. Já na Polícia Militar, o interesse é proporcionalmente maior entre aqueles com níveis mais baixos de escolaridade formal.
Regionalmente, o crescimento foi registrado em todo o país, com destaque para o Norte, onde o interesse pelas Forças Armadas subiu de 53,6% para 67,4%, e para o Nordeste, que apresentou forte avanço no interesse pela Polícia Militar, de 36,3% para 52,5%.
Religião e valores
O levantamento aponta ainda diferenças no recorte religioso. Jovens evangélicos aparecem com os maiores níveis proporcionais de interesse em 2025: 61,5% consideram seguir carreira nas Forças Armadas e 49,3% na Polícia Militar. Entre os interessados na PM, os católicos seguem como o grupo mais representativo, apesar de uma leve queda proporcional.
Além disso, o estudo identificou mudanças em valores e percepções. O nível de satisfação com a vida aumentou entre os jovens em geral (de 31% em 2021 para 44,7% em 2025) e é ainda maior entre aqueles interessados nas carreiras militares.
Outro dado relevante é o crescimento do conservadorismo. O índice médio entre jovens interessados nas Forças Armadas passou de cerca de 0,35 para 0,47, enquanto, entre os interessados na Polícia Militar, subiu de 0,36 para 0,48.
Motivações
Os resultados sugerem uma mudança de percepção sobre carreiras militares, que passam a ser vistas com mais frequência como opção profissional. Ao mesmo tempo, o estudo indica que esse interesse não está necessariamente ligado a insatisfação pessoal — ao contrário, jovens interessados nessas áreas relatam níveis mais altos de bem-estar.
A pesquisa ainda terá desdobramentos qualitativos, que devem aprofundar as motivações por trás dessa escolha. O retrato atual, no entanto, já aponta para uma geração que combina interesses diversos, como carreiras estruturadas e hierárquicas e o empreendedorismo, e que passa a olhar para as forças de segurança com novos significados.










