O advogado Vinicius Mitre, de 66 anos, primo de Cláudio Atala, assassinado junto à esposa na última segunda-feira (29), disse em entrevista ao BHAZ que, em março deste ano, quitou uma dívida de R$ 5 mil da diarista Paola Stefany Neto Cirino, 30. O valor foi entregue depois que ela disse que estava sendo ameaçada por agiotas.
Paola trabalhava na residência de Vinícius, no bairro Nova Suíça, desde outubro do ano passado, frequentando o local duas vezes por semana. O advogado a descreveu como uma profissional exemplar e extremamente detalhista. “Ela era muito boa, muito caprichosa… lavava até saboneteira. Eu nunca vi um troço desse”, disse, destacando que nunca houve qualquer queixa sobre o serviço ou desaparecimento de objetos em sua casa.
Durante o período em que trabalhou na casa dele, Paola pediu ajuda ao revelar que estava sendo ameaçada por agiotas, alegando temer pela própria vida e pela do filho. Sensibilizado pela situação, Vinícius chegou a emprestar R$ 5 mil para ela a quitar as dívidas, valor que nunca foi devolvido. . “Ela falava que ia pagar… Mas nunca me pagou”.
Por confiar em Paola, Vinícius a indicou para amigos e familiares, incluindo seu primo, Cláudio Atala. “Na última sexta-feira, por volta das 19h, Cláudio chegou a me ligar pedindo novamente o telefone de Paola, pois o havia perdido”, lamentou.
Segundo ele, o sentimento agora é de revolta e arrependimento. Vinícius acompanhou detalhes do caso com o delegado, e descreveu o crime como algo “odioso”. “O homicídio já é uma coisa horrível em qualquer circunstância, mas do jeito como ela fez, com requintes de crueldade… foi uma coisa odiosa mesmo”.
Para o advogado, toda a imagem de cuidado e atenção que Paola demonstrava — chegando a preocupar-se com sua alimentação — desapareceu diante da brutalidade do ato. “Tudo que ela conseguiu, ela destruiu, e de forma trágica”, concluiu Vinícius Mitre.
O caso
Os corpos teriam sido encontrados pelo filho do casal no início da tarde dessa terça-feira (01), depois que ele ficou sabendo que o pai não havia aparecido no trabalho. Ao entrar no apartamento, se deparou com os pais já sem vida no local. Segundo o boletim de ocorrência, os dois tinham ferimentos em diferentes partes do corpo, como costas, garganta, pescoço, barriga, queixo e tórax, além de sinais de defesa.
Ao investigar as câmeras de monitoramento do prédio, a Polícia Civil identificou a entrada e saída de Paola na última segunda-feira (29). Equipes foram até a casa dela em Ribeirão das Neves, na Região Metropolitana de BH. Ela não foi encontrada e parentes contaram à polícia que ela teria viajado para o estado do Espírito Santo com o filho.
Além disso, de acordo com informações obtidas pelo BHAZ junto a fontes ligadas à Polícia Civil de Minas Gerais, parentes informaram que a mulher acumulava uma dívida de aproximadamente R$ 40 mil com jogos de azar online, incluindo o popular ‘Jogo do Tigrinho’. A informação ainda é apurada pela polícia e não foi confirmada oficialmente pela PC.
Paola é suspeita de latrocínio, que é o roubo seguido de morte. No local, a polícia constatou que havia uma gaveta de semi joias arrombada no apartamento e que os celulares dos idosos foram roubados.
Roubo
Paola foi flagrada por câmeras de segurança do condomínio, que mostraram a chegada dela às 7h30 e a saída às 15h30, nessa segunda-feira (29). Ao deixar o prédio, ela usava roupas diferentes das que chegou e levava duas bolsas grandes, sendo que uma das bolsas era de Maria Clotilde.
Além disso, a suspeita também foi flagrada descartando uma blusa com manchas de sangue. As imagens mostram o momento em que Paola joga a blusa branca, que usava ao chegar ao apartamento do casal, em uma caçamba localizada em uma rua abaixo do prédio onde o crime ocorreu.
Durante a prisão de Paola, a polícia apreendeu objetos do casal e R$ 18 mil em espécie, que ela adquiriu com a venda dos pertences das vítimas. Segundo as investigações, ela teria vendido os objetos roubados na Praça Sete, no Hipercentro de BH. Os itens levados incluíam relógios, joias e aparelhos celulares.
Polícia suspeita de comparsa
A polícia suspeita que Paola não agiu sozinha na morte do casal. A informação foi revelada ao BHAZ na tarde dessa quarta-feira (1) pelo delegado Gustavo Barletta, do Departamento Estadual de Investigação de Crimes Contra o Patrimônio (Depatri).
Conforme contou à reportagem, a PCMG suspeita que a mulher teve apoio de outro homem para fugir do prédio localizado no bairro São Pedro, região Centro-Sul de BH. Segundo o delegado responsável pela investigação, somente Paola teve acesso ao apartamento no dia do crime.
Quem era o casal
Casados há décadas, Maria Clotilde e Cláudio Atala eram figuras conhecidas no meio profissional em que atuavam e descritos pela família como pessoas ativas e queridas.
De acordo com Henrique Maciel, sobrinho do casal, Maria era dona de uma loja na capital mineira e por muitos anos se destacou como atleta. Já Cláudio era sócio-fundador de um escritório de advocacia no bairro Lourdes, na região Centro-Sul, onde atuava principalmente nas áreas trabalhista e empresarial. Mesmo aos 75 anos, ele continuava exercendo a profissão diariamente.
O casal era conhecido pelo espírito aventureiro e já havia viajado por diversos países. Recentemente, eles haviam retornado de uma viagem aos Estados Unidos. Segundo o sobrinho Henrique Maciel, de quem eram padrinhos de casamento, os tios eram pessoas “cheias de vida” e muito próximas da família. O casal morava na rua Padre Severino há cerca de 20 anos.
A trajetória do dos dois também foi marcada por uma perda dolorosa em 2006, quando a filha deles, triatleta, morreu vítima de um atropelamento. Desde então, eles tinham apenas um filho, que também é advogado e trabalha no escritório fundado pelo pai.
O que diz a defesa de Paola?
Em nota enviada à reportagem, o advogado Bruno Correa Lemos, responsável pela defesa de Paola, informou que as “razões defensivas serão apresentadas no momento processual oportuno, com base nos elementos constantes dos autos e nas provas que vierem a ser produzidas, sempre com respeito às instituições e à atuação das autoridades competentes”.
Veja a nota na íntegra:
“A defesa de Paola manifesta, antes de tudo, seu profundo pesar e solidariedade aos familiares das vítimas, reconhecendo a dor irreparável vivenciada por todos os envolvidos.
Pois bem! No que se refere à investigação, a defesa de Paola atuará com absoluta responsabilidade, observando rigorosamente os princípios constitucionais da ampla defesa, do contraditório e do devido processo legal.
As razões defensivas serão apresentadas no momento processual oportuno, com base nos elementos constantes dos autos e nas provas que vierem a ser produzidas, sempre com respeito às instituições e à atuação das autoridades competentes.
Neste momento, a defesa reafirma sua confiança no Poder Judiciário e ressalta que qualquer conclusão acerca da responsabilidade da investigada deve decorrer exclusivamente da regular instrução processual, e não de julgamentos antecipados ou da repercussão do caso”.












