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Mulher que pulou de prédio para fugir de ex em Contagem estuda direito para ajudar outras vítimas

26/06/2026 às 17h03 - Atualizado em 26/06/2026 às 17h19
mulher pula predio contagem
(Arquivo pessoal)

“A Jhenipher que pulou é uma, a Jhenipher que está sentada aqui conversando com você é outra!”, essa foi a forte afirmação que Jhenipher Sabriny de Oliveira fez ao BHAZ nesta sexta-feira (26), um dia após o ex-companheiro dela ter sido condenado por tentativa de feminicídio. No dia 12 de fevereiro de 2025, a mulher precisou pular do segundo andar de um prédio em Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, para se salvar dos ataques Pablo Henrique Oliveira, seu então marido.

Jhenipher comemorou a sentença de Pablo, que foi condenado a oito anos, 10 meses e 10 dias de prisão. “Até o dia em que saiu a sentença dele, o sentimento que predominava em mim era o de injustiça, porque o meu agressor vivia solto, respondendo em liberdade, enquanto eu precisava me manter presa dentro de casa”, afirma ela.

Apesar da condenação, Jhenipher explicou que o sentimento de insegurança prevalece. “Não foi um resultado tão bom quanto eu desejava, mas foi um resultado esperado”. Além disso, ela expressou insatisfação com o tempo que o ex-companheiro deve cumprir na prisão e defendeu penas mais duras para crimes como esse. “Eu achei uma pena pequena”, comentou. “Precisava, então, dele me matar para ter uma pena mais alta?”, refletiu.

“Eu não fui a primeira e não fui a última. E a tendência, pelo que os nossos olhos estão vendo, é que essa situação não mude assim tão rápido”, desabafou.

Mesmo considerando pouco o tempo de prisão, ela deseja que o tempo seja “de aprendizado para a pessoa humana dele, porque não basta só ficar preso, ele tem que aprender”. “Para que ele não saia e faça outra vítima, nem com violência doméstica, nem com tentativa de feminicídio, nada similar”, disse.

Fôlego de vida

Agora, Jhenipher está estudante direito para ajudar outras vítimas mulheres. “Depois de tudo o que aconteceu, eu estava deitada na maca e fiz um voto comigo mesma. Eu fiz o Enem e hoje sou bolsista no curso de direito. Meu intuito é me especializar nessa área e ajudar mais mulheres”, contou.

“Vou fazer valer o fôlego de vida que me foi dado”, destacou Jhenipher.

Com a graduação, a futura advogada pretende ajudar outras mulheres que passaram pela mesma situação que ela, “porque é difícil quebrar o ciclo”, explicou. “Hoje eu entendo por que uma mulher morre dentro de casa: primeiro, ela não acredita que quem ela escolheu para viver, amar e respeitar a vida toda vai tentar tirar a vida dela. E, segundo, porque o medo faz ela não ter coragem de levantar e pedir ajuda”, completou.

Condenação

Pablo Henrique Oliveira Rodrigues, de 43 anos, foi condenado a oito anos, 10 meses e 10 dias de prisão por tentativa de feminicídio e ameaça contra a ex-companheira, em Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. A decisão foi obtida pelo Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) nessa quinta-feira (25). Ele respondia ao processo em liberdade e, com a condenação, a Justiça expediu um mandado de prisão contra ele.

crime ocorreu em 12 de fevereiro de 2025. Segundo a denúncia do MPMG, o casal manteve um relacionamento por nove anos e estava na casa onde morava quando o homem exigiu que a vítima lhe entregasse R$ 10 mil.

Diante da recusa inicial, o acusado foi até a cozinha, pegou uma faca e passou a ameaçar a mulher. Com medo, ela concordou em entregar o dinheiro.

Nesse momento, uma vizinha de um apartamento próximo percebeu a ameaça e gritou ao ver o homem com a faca. Assustado, ele guardou a arma para que a testemunha não a visse. Aproveitando a distração do agressor e temendo ser morta, a vítima pulou da janela do apartamento, localizado no segundo andar do prédio, para escapar. A queda provocou diversas fraturas.

‘Vivi por muitos anos com medo’

“Só eu e meu menino sabemos o inferno que nós vivíamos”, descreve Jhenipher Sabriny de Oliveira sobre os anos que viveu ao lado de Pablo Henrique Oliveira Rodrigues. A mulher precisou pular do segundo andar de um prédio para se salvar dos ataques do companheiro.

Em conversa com o BHAZ, Jhenipher revelou que já era vítima de violência doméstica há anos, mas que nunca tinha procurado a polícia. Os dois estavam juntos há nove anos e casados há oito. Ela relata que no início do relacionamento, Pablo não demonstrava comportamento violento.

“Com o tempo ele foi evoluindo essas agressões. Começa com um xingo, com um tom mais alto e isso vai evoluindo a ponto de chegar às vias de fato. Eu já tomei soco, tapa na cara, empurrão”, lembra.

A versão é confirmada pelo filho de Jhenipher, um adolescente de 15 anos, que narra as agressões: “Esse homem era explosivo, ele xingava todo mundo, xingava os funcionários, xingava minha mãe e eu dentro do ambiente do trabalho e dentro de casa. Se a polícia for no apartamento vai ver marca de soco na porta do banheiro, na geladeira, na porta do quarto”.

O jovem ainda afirma que a rotina da família era marcada por conflitos e que ele chegou a ser expulso de casa pelo padrasto. O garoto também era alvo de violências físicas e emocionais por parte de Pablo. “Eu apanhava, tomava soco, chute na cara e chute no estômago. Ele também já me proibiu de comer dentro de casa, de mexer no armário”.

Segundo o rapaz, o homem tinha o costume de carregar uma machadinha dentro do carro e usava o objeto para ameaçar tanto o menino, quanto a mulher. “Eu não dava as costas para ele, porque eu tinha medo de ele meter uma faca nas minhas costas, porque ele era imprevisível. Tinha dias que ele parecia estar normal e do nada ele xingava a gente”.

Violência psicológica

Ainda conforme Jhenipher, ela viveu num ciclo de violências psicológicas enquanto esteve com o ex-companheiro. “A gente no início acredita que vai mudar, que vai resolver, que vai melhorar, mas chega um momento em que ele consegue criar uma camada que ele trabalha com o seu medo. Eu vivi por muitos anos com medo”, diz.

“Ele não aceitava a minha ausência. Se eu saísse da presença dele, ele me ligava 40 vezes num só dia. Ele me mandava mensagem: ‘Onde você tá?’ e xingava palavrão”.

Ela afirma que pensou em se separar do marido, mas que desistia da ideia por causa das ameaças constantes.

“Não podia nem falar desse assunto lá em casa, porque se não o pau quebrava. Além de ter todo o jogo psicológico, a agressão física, a verbal, ele ainda não deixa de você respirar, então assim, você não consegue se ver livre da pessoa”, finaliza.

Amanda Serrano

Com experiência nas principais redações de Minas, como Jornal Estado de Minas e TV Band Minas, além de atuação como assessora política, Amanda Serrano é, atualmente, repórter do Portal BHAZ. Em 2024, fez parte da equipe vencedora do Prêmio CDL/BH de Jornalismo.
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