Moradores de Sabará, Baldim, Jequitibá e outras cidades da bacia do Rio das Velhas, em Minas, denunciam o aparecimento de peixes mortos em regiões ribeirinhas. O fenômento estaria diretamente associado ao retorno das chuvas no estado após longo período de estiagem, e, segundo os especialistas, pode afetar negativamente as populações locais.
Em vídeos enviados ao BHAZ é possível ver a quantidade massiva de animais sobre as águas escuras do Velhas. Mestre em Ecologia, Conservação e Manejo de Vida Silvestre e pesquisador do Projeto Manuelzão, o biólogo Carlos Bernardo Mascarenhas detalha o registro de mortandade nas regiões banhadas pela bacia.
“As mortandades estão ligadas, em parte, a essa questão do período de estiagem que acumula lixo, agrotóxicos na área rural, coisas da mineração, tudo aquilo que é produzido pelo homem durante o período de seca. O que acontece é que todo esse material acumulado, e não disposto corretamente, vai, em poucas horas, para os rios nas primeiras chuvas”, explica.
Segundo Carlos, o despejo quase imediato desses resíduos prejudica, por si só, a qualidade das água, mas em 2024 há o agravante do acúmulo de cinzas no ar e no solo, proveniente das queimadas registradas no estado. “Por fim, a gente não pode ignorar que uma área densamente povoada e de alta industrialização e mineração pode também estar liberando algumas substâncas tóxicas aos peixes. Mas a detecção delas é mais difícil”, aponta.
Problema social
Embora recorrente, o evento de mortandade, de acordo com o pesquisador, vinha de uma tendência de diminuição nos últimos anos, segundo as observações. “Tanto no número de ocorrências, quanto na extensão das áreas afetadas e volume de peixes mortos”. Em 2024, no entanto, a tendência foi quebrada. “Os motivos que eu mencionei levaram a esse evento mais drástico”.
Carlos ressalta que o fenômeno não deve ser encarado como comum pela sociedade, já que é um reflexo do uso humano da bacia. “As pessoas não devem se acostumar ela (a mortandade)”, diz. “Enquanto a gente gerar essa quantidade de lixo que a gente gera, dispor incorretamente os lixos e os rejeitos, tratarmos o esgoto parcialmente numa qualidade aquém do necessário, o cenário vai se repetir”, levanta.
O biólogo aponta que a mortes dos peixes afeta diretamente as populações ribeirinhas para além da perda de alimentos para consumo. “A mortandade é um péssimo indicador da qualidade da água. Então o que acontece é que quando há a mortandade de peixes, você sabe que a água tá numa qualidade crítica, e isso não pode ser negligenciado. A população que mais sofre é a que usa a água do rio para suas atividades, principalmente as domésticas, e para lavouras”.
Saídas
Apesar de complexo e sistêmico, o problema deve ser encarado de frente pelo poder público, segundo o Carlos Mascarenhas. O pesquisador aponta possíveis frentes de atuação: “a primeira delas é o poder público propiciar atividades de mobilização e conscientização da população para que não produza um volume tão grande de lixo, que não disponha de forma inadequada esse lixo e que não haja aumento da poluição nos cursos de água”.
Ele defende que os mecanismos de fiscalização e controle ambiental possam cobrar das empresas industriais e de mineração práticas condizentes com a conservação. “Não dá mais pra fazer atividades na bacia de forma predatória, irresponsável”, crava. “O poder público tem que ser o propulsor dessas mudanças civilizatórias”.
Carlos aproveita a oportunidade para divulgar o trabalho do Projeto Manuelzão, criado em 1997 por iniciativa de professores da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais. “O que nós sempre fizemos foi a questão da mobilização social para que o sentimento de cidadania dos habitantes prevaleça para cobrar dos governantes, dos políticos, ações que possam estabilizar, reverter essa tendência de mortandade todo ano”.
Conheça mais sobre o Manuelzão neste link.












