Uma investigação da Polícia Civil e do Ministério Público de São Paulo (MPSP) expôs um esquema de captação e comercialização ilegal de sangue de gatos que operava em pelo menos quatro cidades do interior paulista (Monte Alto, São José do Rio Preto, Mirassol e Catanduva). A denúncia formaliza acusações de associação criminosa e maus-tratos a animais contra cinco pessoas.
Como o esquema funcionava
Segundo apurado pelas investigações, o grupo recrutava tutores de gatos, em geral de baixa renda, por meio de anúncios em redes sociais e status de WhatsApp, publicados a partir de outubro de 2025, oferecendo cerca de R$ 50 por animal entregue para “doação” de sangue.
Os gatos eram sedados com quetamina e dexmedetomidina, sem avaliação clínica prévia de peso, idade ou estado de saúde e sem monitoramento adequado durante o procedimento. As coletas eram de aproximadamente 48 ml de sangue por animal e ocorriam em condições precárias, inclusive no chão de imóveis residenciais, sem qualquer licença da Vigilância Sanitária.
De acordo com a denúncia do MPSP, os envolvidos “exerciam funções distintas, como financiamento, articulação, aquisição de animais e coleta de sangue”. Quem realizava as extrações recebia R$ 300 por procedimento; dois auxiliares ficavam com R$ 100 cada. O material era depois revendido. Bolsas de cerca de 50 ml custavm entre R$ 500 e R$ 800 a uma clínica veterinária de São José do Rio Preto, que teria alegado desconhecer a origem irregular do produto.
A operação que expôs o esquema
O caso veio à tona em 4 de outubro de 2025, quando a Guarda Civil Municipal de Monte Alto, acionada após denúncias em redes sociais, chegou a um imóvel no bairro Monte Belo e encontrou seis gatos desacordados, ainda sob efeito de anestesia. Um dos animais testou positivo para FIV (a “aids felina”), evidenciando a ausência total de triagem sanitária dos doadores. Laudos posteriores apontaram animais com baixo peso e desnutrição, em risco de morte por hipovolemia, perda excessiva de volume sanguíneo.
Na ação, foram apreendidos 108 tubos de sangue felino, seringas, frascos de anticoagulante, aparelhos celulares e registros fotográficos dos animais sedados. A partir daí, a Polícia Civil aprofundou a apuração com perícias, análise de celulares, rastreamento financeiro e oitiva de testemunhas, o que resultou na denúncia formal quase um ano depois.
Os denunciados
Cinco pessoas foram denunciadas pelo MPSP. De acordo com a denúncia, ao menos dois deles responderiam apenas pelo crime de associação criminosa, enquanto os demais também são acusados de maus-tratos, com base na Lei de Crimes Ambientais (Lei nº 9.605/1998), que prevê pena de dois a cinco anos para maus-tratos a animais.
O papel do CRMV-SP e a situação da clínica
O Conselho Regional de Medicina Veterinária de São Paulo (CRMV-SP) informou ter realizado ações de fiscalização em estabelecimentos ligados ao caso, identificado irregularidades e adotado medidas administrativas cabíveis.
Por que a demanda por sangue de gatos existe
Transfusões felinas são procedimentos legítimos e necessários em casos de anemia grave, hemorragias, doenças renais ou cirurgias de risco, mas exigem doadores saudáveis, triagem para doenças como FIV e FeLV, tipagem sanguínea compatível e coleta em ambiente clínico controlado, com volumes seguros por peso do animal. A escassez de bancos de sangue veterinário estruturados no Brasil, sobretudo fora das grandes capitais, é apontada por especialistas do setor como um dos fatores que abrem espaço para esquemas informais e, como neste caso, criminosos, que colocam em risco tanto os doadores quanto os animais que dependem das transfusões.
Próximos passos
Com a denúncia recebida pela Justiça, os cinco réus passam a ter prazo para apresentar defesa formal antes do início da instrução criminal na 2ª Vara de Monte Alto.

















