Há histórias na música brasileira que só fazem sentido quando são contadas de trás para frente. Esta é uma delas. Começa com uma fita K7, uma melodia sem letra e uma promessa entre dois amigos. Termina como uma das canções mais silenciosamente devastadoras já gravadas no país. No meio do caminho, um avião ultraleve cai no mar da Costa Verde fluminense, a mulher de um dos principais músicos brasileiros morre e ele entra em coma. O que ninguém sabia, naquela noite de fevereiro de 2001, era que a última coisa que Herbert Vianna fez antes do desastre aéreo foi deixar uma fita na casa do vizinho.
Dois vizinhos na Vargem Grande
Leoni e Herbert Vianna se conheceram no começo das respectivas carreiras, ainda nos anos 1980, quando Kid Abelha e Paralamas do Sucesso disputavam as paradas do rock brasileiro lado a lado. A amizade sobreviveu às décadas e, em determinado momento, virou vizinhança. Leoni se mudou com a família para a Vargem Grande, bairro afastado na Zona Oeste do Rio de Janeiro, um lugar quase rural, mais parecido com interior do que com a cidade grande. A casa nova ficava praticamente em frente à de Herbert. Os filhos dos dois cresceram brincando juntos no mesmo quintal, ainda pequenininhos.
Da proximidade nasceu um desejo antigo de Leoni: compor com o amigo. “Herbert não é uma pessoa de parcerias”, ele reconhece em entrevista a Felipe Tellis. Mesmo assim, em algum momento dessa convivência, Herbert topou. “Cara, eu queria lançar uma parceria nossa no próximo disco dos Paralamas”, disse a Leoni. Chegaram a esboçar duas músicas juntos. Mas o desejo de compor com Herbert nunca abandonou Leoni. Ele já havia usado parcerias com o amigo, ainda que remotas, em canções como “Por Que Não Eu?” e “Educação Sentimental II”, que tinham no time de composição ele, Herbert e Paula Toller, vocalista do Kid Abelha e que namorou ambos.
A fita da véspera
Foi nesse contexto de amizade e proximidade doméstica que, num dia qualquer do início de fevereiro de 2001, Herbert Vianna atravessou a rua e levou a Leoni uma fita K7. Dentro dela, apenas uma melodia, “fonemas, sons sem significado”, como Herbert costumava compor antes de vestir as músicas com palavras. Não havia letra. Era, em essência, um convite, “ouça isso e me diga o que acha”.
Leoni ouviu. E decidiu, ali mesmo, que aquela seria a parceria que os dois nunca tinham conseguido terminar. “Eu falei: cara, vou fazer sobre amizade, sobre isso que tá rolando aqui”, contou o cantor, anos depois, relembrando o instante em que resolveu escrever sobre o que os unia, dois amigos, duas famílias, uma vizinhança na beira da mata.
No dia seguinte, Herbert Vianna sofreu o acidente.
A queda
Em 4 de fevereiro de 2001, o ultraleve pilotado por Herbert caiu no mar, na região da Baía de Angra dos Reis, perto de Mangaratiba, no litoral do Rio de Janeiro. A bordo estava sua mulher, a jornalista britânica Lucy Vianna (Lucy Needham), que ele conhecera anos antes quando ela o entrevistou para um documentário da BBC. Lucy morreu no acidente. Herbert ficou em coma.
“A gente era amigo do casal”, relembra Leoni. “A Lucy morreu e ele ficou em coma.” A notícia chegou como um corte seco na conversa que os dois vinham tendo havia menos de 24 horas. A fita, a melodia, a promessa de uma letra sobre amizade. De repente, não havia mais música possível. “Eu falei: não sei nem o que fazer disso, não sei o que vai acontecer”, disse Leoni sobre aquele momento, com a fita K7 ainda em algum lugar da casa, intocada.
A espera
Herbert permaneceu internado por 44 dias. Enquanto isso, a vizinhança que havia aproximado as duas famílias se transformou em rede de apoio. Leoni e a mulher, Luciana, ajudaram a cuidar de duas filhas pequenas de Herbert, Phoebe e Hope. “A gente ficou tão perdido de estar naquele lugar distante sem ele”, contou Leoni sobre os meses seguintes na Vargem Grande. A casa do vizinho vazia, o jardim que alguém precisava cuidar, a espera que não tinha data para acabar. Em determinado momento, o casal chegou a ir a um templo budista, buscando algum tipo de amparo diante da incerteza.
Foi nesse período de espera que a melodia da fita K7 deixou de ser apenas uma parceria pendente e se transformou em outra coisa. Dois meses depois do acidente, quando Herbert finalmente saiu do coma e a notícia se espalhou de que ele voltaria para casa, Leoni tomou uma decisão: sentou-se e escreveu a letra que faltava. Não mais uma canção sobre a amizade cotidiana entre dois vizinhos, um presente para o amigo que estava prestes a reencontrar um mundo completamente diferente daquele que havia deixado.
“Toma seu tempo, a gente está aqui”
A letra fala em cuidar do jardim de quem se ausentou, em luz do dia que continua chegando, em alguém que vai estar lá para receber e amparar quem volta. “Toma seu tempo, a gente tá aqui”, diz um dos versos, praticamente uma transcrição literal do que a vizinhança de Leoni havia feito, na prática, durante os 44 dias de internação. A canção termina com um mantra repetido em sânscrito, recitado pelo Lama Sonam: um trecho associado à compaixão, à cura e à purificação do carmam, eco direto da passagem do casal pelo templo budista durante a espera.
Quando Herbert finalmente voltou para casa, Leoni deu a ele a letra pronta, como presente. Herbert gravou a música com Leoni. O resultado, “Canção Pra Quando Você Voltar”, saiu em 2003 no álbum Áudio-Retrato, de Leoni, um disco de arranjos acústicos e minimalistas que revisitava a carreira do cantor, com direito a violoncelo e clarinete na faixa que guardava, sem alarde, a história de uma fita gravada na véspera de uma tragédia.
“Pra mim é… eu escuto, eu fico arrepiado, eu choro, sabe?”, resumiu, anos mais tarde, o filho de Leoni, ao ser perguntado qual era a música favorita que o pai já havia composto. A resposta não precisou de explicação para quem já conhecia a história.

















