O Grupo Casas Bahia protocolou no fim de semana, no Foro Central Cível de São Paulo, um pedido de recuperação judicial que abrange a controladora e outras nove empresas do grupo. O movimento, divulgado ao mercado nesta segunda-feira (17), marca o desfecho de uma crise financeira que se arrastava havia meses e que, apenas dois anos atrás, a própria companhia dizia estar descartado.
Além da Casas Bahia, entraram no pedido a ASAP Log – Logística e Soluções, a CNT Soluções em Negócios Digitais e Logística, a Cntlog Express Logística e Transporte, a Globex Administração e Serviços, a Cnova Comércio Eletrônico, a Integra Soluções para Varejo Digital, a Casas Bahia Tecnologia e a fabricante de móveis Bartira, ou seja, praticamente toda a estrutura logística, digital e industrial do grupo.
Uma dívida de R$ 17,3 bilhões e mais de 19 mil credores
Segundo o pedido, a Casas Bahia soma R$ 17,3 bilhões em dívidas, das quais R$ 16,4 bilhões estão classificadas como quirografárias (sem garantia real), distribuídas entre mais de 19 mil credores. O balanço do segundo trimestre de 2026, divulgado dias antes, já escancarava o tamanho do problema: patrimônio líquido negativo de R$ 8,27 bilhões e um estoque que encolheu de R$ 5,4 bilhões para R$ 4,2 bilhões em apenas três meses por falta de capital de giro para repor mercadorias.
A empresa afirmou que o pedido busca evitar o vencimento antecipado de dívidas e a retenção de mercadorias por transportadoras, e disse que lojas físicas e canais de e-commerce continuarão funcionando normalmente, “priorizando o atendimento aos clientes e consumidores, sem interrupções relevantes”.
O rombo de R$ 10 bilhões no trimestre
O estopim mais recente foi o resultado do segundo trimestre de 2026: um prejuízo líquido de R$ 10,1 bilhões, dezoito vezes maior que o prejuízo de R$ 555 milhões registrado um ano antes, mesmo com a receita líquida crescendo 1,6%, para R$ 6,98 bilhões. Foi o oitavo trimestre seguido no vermelho. O último lucro trimestral da companhia havia sido registrado no segundo trimestre de 2024.
Boa parte do rombo veio de ajustes contábeis, não da operação em si. Do montante, R$ 5,7 bilhões referem-se à baixa de créditos tributários que a empresa não espera mais conseguir aproveitar. Ainda assim, mesmo descontados esses efeitos extraordinários, a companhia teria fechado o trimestre com prejuízo próximo de R$ 1 bilhão, puxado por juros altos, crédito mais restrito para o varejo, o enfraquecimento do consumo das famílias endividadas e o fracasso de uma tentativa de captação internacional.
A auditoria independente EY absteve-se de emitir opinião sobre as demonstrações financeiras, apontando “dúvidas significativas quanto à capacidade de continuidade operacional” da companhia.
Fechamento de lojas e corte de vagas
O ajuste operacional já em curso incluiu o fechamento de 298 lojas até junho, quase 30% da rede física. O quadro de funcionários caiu para cerca de 30,1 mil pessoas, uma redução da ordem de 1,6 mil a 2 mil postos de trabalho em relação ao início de 2025.
De “descartamos essa possibilidade” ao pedido judicial
A trajetória até aqui contrasta com o discurso da própria administração. Em janeiro de 2024, o CEO do grupo, Renato Franklin, havia afirmado publicamente que a recuperação judicial estava fora de cogitação, dizendo que a dívida da companhia estava concentrada em apenas dois bancos e que a ferramenta “não se aplicava” ao caso da empresa. Meses depois, em 2024, a Casas Bahia fechou uma recuperação extrajudicial que alongou R$ 4,1 bilhões em dívidas, movimento que, à época, chegou a fazer as ações da varejista (BHIA3) dispararem mais de 30% na bolsa, em meio ao otimismo do mercado com a reestruturação.
Esse otimismo, no entanto, não se sustentou. Às vésperas da divulgação do balanço do segundo trimestre de 2026, os papéis BHIA3 fecharam a sexta-feira cotados a R$ 0,66, avaliando a companhia em cerca de R$ 670 milhões.

















