Foi numa mesa de bar, no meio de uma rua de Veneza, que o produtor Nelson Motta, de 81 anos, viu pela primeira vez o talento que ajudaria a redesenhar os rumos da música popular brasileira. A história foi recontada por ele mesmo durante participação no programa Sem Censura, da TV Brasil.
Motta contou à bancada que decidiu atravessar o Atlântico para assistir, sozinho, ao show de “uma desconhecida” de 20 anos. Era a cantora e compositora Marisa Monte, que, na época, morava na Itália, onde tentava se aperfeiçoar no canto lírico. “Eu resolvi ir a Veneza assistir a um show de uma desconhecida, de uma menina de 20 anos”, disse o produtor, provocando espanto na bancada. “Nelsinho, tu é doidinho, adoro, adoro”, reagiu uma das apresentadoras, entre risos.
Para justificar o peso daquela viagem aparentemente impulsiva, Motta recorreu a uma reação de outro gigante da música brasileira: Caetano Veloso. Segundo ele, o compositor baiano chorou ao ler o relato do episódio em um de seus livros, referência às memórias reunidas na obra “Noites Tropicais”. “O Caetano falou pra mim que, quando ele leu essa história no meu livro, ele chorou, e a Paulinha me confirmou que mudou a música brasileira”, relatou, atribuindo àquela ida a Veneza o status de ponto de virada na trajetória de Marisa Monte.
Ao chegar à cidade italiana, Motta encontrou uma cena essencialmente amadora. Marisa dividia o palco com um violonista italiano, amigo de uma amiga dela, num bar de mesas e cadeiras espalhadas pela calçada, tocando “aquele repertório de barzinho”, expressão que arrancou concordância imediata de Simone, presente no estúdio.
O relato ganha contornos quase cinematográficos na descrição do próprio show. Quando a apresentação começou, havia cerca de 50 pessoas dentro do bar veneziano, situado numa rua de calçadas largas, com um canal ao fundo, segundo descreveu Motta. “Foi juntando gente, foi juntando gente”, contou. Ao final, a plateia improvisada já se estendia da porta do bar até a margem do canal. Foi ali, testemunhando o cachê de estreia da artista que Nelson Motta formou a certeza que carregaria pelas décadas seguintes: “Quando eu vi essa garota cantando, tive certeza que ela ia ser enorme.”
Os detalhes batem com a biografia oficial da cantora. Marisa Monte, nascida em 1º de julho de 1967 no Rio de Janeiro, foi para Roma aos 18 anos com o sonho de aprofundar os estudos de canto lírico. Ainda na Europa, fez o show em Veneza no qual, segundo o site oficial da artista, “se reencontrou” com o produtor, episódio que, pela idade mencionada por Motta, teria ocorrido por volta de 1987, ano em que ela completou 20 anos e voltou ao Brasil. Foi então que Motta assumiu a direção de seus primeiros shows profissionais, incluindo a estreia na badalada casa carioca Jazzmania, além de um especial de TV realizado em parceria com o cineasta Walter Salles, mais tarde diretor de “Central do Brasil”.
O aval do produtor, que também construiu carreira como jornalista em veículos como Jornal do Brasil e O Globo, e como compositor de parceiros como Djavan, Rita Lee e Lulu Santos, se confirmou dois anos depois. Em 1989, Marisa Monte lançou “MM”, álbum de estreia que uniu samba, jazz, blues, bossa nova e rock e vendeu mais de 500 mil cópias, impulsionado pelo sucesso “Bem Que Se Quis”, não por acaso, uma versão em português assinada pelo próprio Nelson Motta para uma canção italiana, eco direto daquela temporada europeia que começou num bar de Veneza.

















