Quinze dias antes de começarem as gravações de “Confissões de Adolescente”, o elenco que rodava o país com a peça que deu origem à série sofreu um acidente de carro que quase terminou em tragédia. Décadas depois, os sobreviventes revivem o episódio, e contam como ele mudou, sem que o público jamais percebesse, a própria série que se tornaria um marco da teledramaturgia brasileira.
A lembrança veio à tona na edição especial do programa Sem Censura, da TV Brasil, exibida nessa sexta-feira (14) em homenagem aos 30 anos de “Confissões de Adolescente”. Sob o comando de Cissa Guimarães, a autora Maria Mariana, a atriz Carol Machado e o diretor Daniel Filho se reuniram para relembrar os bastidores da série que, antes de virar fenômeno de TV, já era sucesso como livro e como peça de teatro.
“A gente quase morreu”
Foi Daniel Filho quem trouxe o assunto à tona, direto: “Mas a 15 dias de começar a filmar há um desastre.” A resposta veio de Maria Mariana, que na época rodava o país com o elenco da peça: “A gente tava viajando, né, com a peça, sofre um acidente e eu quebro o fêmur.” O carro em que estavam capotou e desceu um barranco. “Acidente de carro na van, quebrei o fêmur, eu preciso fazer o seriado, não vou deixar de fazer o seriado”, relembrou a autora, já antecipando a determinação que marcaria os meses seguintes.
A dimensão do acidente só ficou clara quando o grupo voltou, anos depois, ao local da batida. “Se hoje você olha o barranco de 25 metros que o carro capotou, você fala: ninguém sobreviveu”, contou a atriz Carol Machado, que, na TV, não atuou e seu personagem foi interpretado pela ainda adolescente Deborah Secco, arrancando exclamações dos demais convidados. “E todo mundo sobreviveu.”
A atriz seguiu descrevendo, em detalhes, o instante do capotamento. “Eu tenho 40 pontos aqui na cabeça”, contou, explicando que abriu o vidro do carro com a própria cabeça durante as voltas do capotamento. Outra integrante do grupo fraturou o cóccix. Em meio ao caos, Maria Mariana foi a única que permaneceu consciente do início ao fim: “A Mari, ela tava acordada. Então ela se segurou, e ela foi capotando, porque a gente foi sendo cuspida conforme capotava. É uma tragédia mesmo”, descreveu Carol. “[Foi um] primeiro contato com a morte”, resumiu.
Mesmo com o fêmur quebrado, algo que ela só percebeu depois de já ter agido, Maria Mariana ainda ajudou a salvar o motorista do veículo. “A Mari foi até o fim, enfim, até a água, saiu meio andando, ainda salvou o motorista”, contou Carol Machado. “E só quando ela pisou que ela viu que ela tava com o fêmur quebrado.”
“Eu fiquei por algum motivo”
Passadas mais de três décadas, o episódio ainda aparece como um divisor de águas na vida de Maria Mariana. “Como tudo na vida serve muito pra gente tirar nossa força, né? Então depois dali eu vi que eu fiquei por algum motivo, né?”, refletiu a autora, que voltaria a recorrer a essa mesma força em outros momentos difíceis de sua trajetória. “Se eu podia ter ido, eu fiquei, então é porque eu tenho alguma coisa ainda pra fazer”, resumiu.
O segredo que ninguém percebeu na tela
Recuperada apenas parcialmente e ainda com a perna imobilizada, Maria Mariana entrou em cena para gravar a primeira temporada da série sem abrir mão do papel, e sem que os telespectadores jamais desconfiassem de nada. A solução veio do diretor Daniel Filho, que reformulou a movimentação da personagem para esconder a lesão da autora.
“Na série do primeiro ano, que todo mundo assistiu, ela não dá um passo. Ela só podia sentar ou estar em pé. Ela só podia, na cama, deitar e rolar. Ela não podia sair da cama”, revelou Daniel Filho. Para viabilizar as cenas em que a personagem precisava se locomover, o diretor recorreu a uma dublê: “Todas as cenas eram feitas com ela e a dublê, e eu tinha hora que ela fazia assim, eu cortava, e a dublê passava e ficava com o contraplano.”
O resultado, segundo o diretor, foi uma montagem tão bem construída que a própria Maria Mariana, revendo as cenas hoje, tem dificuldade de identificar os cortes: “Ninguém nota isso, nem ela mais nota isso agora, porque eu tinha uma dublê dela”, recorda Daniel Filho.

















