Em entrevista ao programa “Sem Censura”, da TV Cultura, o correspondente internacional Rodrigo Alvarez contou como uma reportagem do “Fantástico” sobre um padre brasileiro atacado em Gaza, alvo de coquetéis molotov e que teve o carro destruído, resultou em um telefonema de ameaça um dia depois de ir ao ar
Uma pergunta sobre como era viver na Terra Santa abriu espaço para um dos relatos mais tensos já contados pelo jornalista Rodrigo Alvarez em uma entrevista de TV. Ex-correspondente da Rede Globo, ele revelou os detalhes de uma ameaça de morte recebida por telefone depois de expor, em rede nacional, os ataques sofridos por um padre brasileiro que vivia em Gaza.
Alvarez contou que se mudou para a região a convite do próprio diretor de jornalismo da Globo, que buscava um substituto para o correspondente que ocupava o posto na época. “O rapaz que está lá quer sair, não gostou, a mulher está reclamando”, relatou o jornalista, recordando a conversa que o levou à Terra Santa. Para ele, foi a realização de um sonho antigo: “Sempre sonhei, falei: ‘É agora!'”
Ele ficou quatro anos na região. “Fiquei quatro anos, teria ficado mais se não tivesse sido ameaçado de morte, eu não tinha nenhum plano de sair”, afirmou, deixando claro que a saída não foi planejada, mas consequência direta do episódio que o marcou como correspondente.
“Mas como foi essa ameaça?”, perguntou a apresentadora Cissa Guimarães. “Ameaça foi porque eu fui à Gaza mostrar o trabalho do padre Mário, brasileiro em Gaza”, respondeu Alvarez.
Segundo o jornalista, o padre Mário conduzia, em Gaza, um trabalho pastoral aberto a todas as vertentes do cristianismo. Alvarez lembrou ainda que a igreja da qual o sacerdote fazia parte era a mesma “de que o Papa Francisco sempre falava”, que “ligava para Gaza até o dia dele morrer”. “Fui nessa igreja porque, na época, era um padre brasileiro, o padre Mário, que estava sofrendo ataques”, explicou. “Já tinha ido a Gaza algumas vezes, mas fui ali para conhecer especificamente o trabalho que ele fazia, que não é um trabalho para os católicos nem para os ortodoxos, porque lá a Igreja é para todos os cristãos.”
Foi ao visitar o religioso que o correspondente testemunhou de perto a perseguição sofrida por ele. “Então eu fui conhecer o trabalho e testemunhei os ataques a ele”, disse Alvarez. O relato do próprio padre Mário, reproduzido pelo jornalista, descreve a violência enfrentada no dia a dia:
“Me jogam um coquetel molotov aqui dentro, quebram meus vidros, destruíram meu carro”, disse o padre ao jornalista.
Questionado sobre o motivo de tanta hostilidade, o padre teria dito, segundo Alvarez: “Porque eu sou cristão e eu estou numa terra de muçulmanos, mas eu não estou aqui para converter ninguém.”
Alvarez transformou o episódio em uma reportagem exibida no “Fantástico”, da Globo. “Eu mostrei isso numa grande reportagem no Fantástico, na Globo. A repercussão foi grande, e o telefonema tocou no dia seguinte”, contou. No estúdio, o jornalista foi questionado se a ameaça teria partido de brasileiros ligados ao grupo, “porque tem brasileiros no Hamas, né?”.
Foi então que chegou o recado que dá nome ao momento mais marcante da entrevista. Ao telefone, alguém disse a Alvarez:
“Rodrigo, o Hamas não está nada satisfeito com você. Eu acho que eu não [voltaria a] aparecer por aqui não, viu.”
Perguntado sobre onde seria esse “aqui”, o jornalista foi direto: “Não, em nenhum lugar.” A partir daquele telefonema, os avisos não pararam mais. “E aí começa a vir mensagem”, relatou. Ao fim do relato, Alvarez resumiu o aprendizado da experiência em uma frase: “Não se brinca com o extremismo.”

















