Irmãos são chamados de ‘bando de macacos’ em jogo no Mineirão: ‘A luta contra o racismo é diária’

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Denúncia é investigada pela Polícia Civil (Reprodução/@migueelrs/Instagram)

“Quando se trata da luta conta o racismo, não tem paz, não tem trégua”. A declaração é do publicitário Carlos Miguel Lopes, 25, vítima de injúria racial juntamente com o irmão Carlos Eduardo Fernandes, 22. Tudo aconteceu no último sábado (20), Dia da Consciência Negra, no Mineirão. O caso é investigado pela Polícia Civil de Minas Gerais.

Em entrevista ao BHAZ, o jovem conta que ele e o familiar reuniram as namoradas e dois primos para assistirem a partida do Atlético contra o Juventude, no entanto, não imaginavam o que iriam passar. “Estávamos no corredor da arquibancada do setor amarelo inferior, quando um indivíduo veio empurrando minha prima”, relembra.

A atitude do homem causou estranheza em Carlos, já que sequer foi feito um pedido de licença para passar. “A minha prima reagiu na hora falando: ‘Já vou te deixar passar’. Neste momento, ele virou e retrucou: ‘É bom mesmo, porque senão passo por cima de vocês'”.

Diante da falta de educação do torcedor, Carlos e o irmão foram até ele, já que o desrespeito prosseguia. “Ficamos assustados com a forma que ele disse pra minha prima. Ele começou a empurrá-la e aí demos um passo a frente”.

A injúria racial foi praticada logo na sequência. “Quando fomos impedir que algo a mais fosse feito, esse indivíduo virou e falou: ‘O que vocês estão me olhando macacos?'”.

Sem reação

Carlos Miguel ficou sem reação logo após ter ouvido a declaração racista. “A minha perna começou a tremer. Eu e meu irmão não sabíamos o que fazer naquele momento. Tentávamos resolver a situação da melhor maneira quando tudo aquilo aconteceu”, relembra.

O homem que cometeu a injúria racial estava com o filho no Mineirão. “Ele [o filho] puxou o pai e falou umas coisas que não deu pra gente ouvir. Só sei que o homem virou pro filho e disse: ‘Você vai defender esse bando de macacos?’. Ele nos chamou de macaco umas três vezes”.

Choro, revolta, denúncia

Tudo isso aconteceu no final do primeiro tempo da partida e acabou com o dia de Carlos Miguel e toda família. “As meninas ficaram aos prantos e eu chorei de muita raiva. Eu só queria ir no estádio para comemorar uma vitória do Galo. Acabamos parando na delegacia”, conta.

O publicitário foi encaminhado até a delegacia do estádio e registrou um boletim de ocorrência. “Aquilo acabou com meu dia e com a minha semana. Isso mexe muito com o psicológico e o pior é saber que não fomos os primeiros e nem seremos os últimos a passar por tal situação”.

‘Luta diária’

Além da ocorrência, Carlos Miguel também recorreu às rede sociais para denunciar a injúria racial sofrida. Ao BHAZ, ele destaca que tudo aconteceu em um dia reflexivo. “No Dia da Consciência Negra, uma data emblemática, quando vemos muitas postagens e declarações. Só mostra que a luta contra o racismo é diária”.

Carlos Miguel ressalta que é doloroso relembrar tudo que ele e a família passaram. “É difícil ficar dando entrevista, pois revivo tudo, porém, é necessário. Se queremos uma mudança, precisamos denunciar”.

O caso já está sendo investigado pela Polícia Civil. A instituição informou ao BHAZ que “a ocorrência foi destinada para a 3ª Delegacia de Polícia Civil Noroeste para a apuração dos fatos”. “Mais informações serão repassadas em momento oportuno”, esclareceu.

Lamento

O Mineirão lamentou a injúria racial sofrida pelos torcedores e disse que os vigilantes do estádio receberam “instruções de como agir para casos de injúria racial, importunação sexual ou qualquer tipo de discriminação”.

Em nota, o Mineirão ressaltou que tem disponibilizado um “canal de denúncias por WhatsApp“. O intuito é agilizar o atendimento e “colaborar com com apuração dos fatos junto aos órgãos de segurança”. “É importante que as denúncias aconteçam para que os responsáveis sejam punidos”, ressaltou em nota que pode ser lida abaixo.

Mineirão vira palco de racismo e assédio

Esta não é a primeira denúncia envolvendo racismo no Mineirão. Além deste crime, nas últimas semanas, o noticiário também vem sendo marcado também por casos de importunação sexual.

A torcedora Débora Caroline Rodrigues Cotta, 25, foi agarrada e beijada à força por um homem durante o jogo do Atlético x Corinthians, no Mineirão. Ao BHAZ, ela contou que não teve apoio da equipe do estádio e de ninguém que estava por perto.

Na mesma partida, uma mulher que trabalhava no bar do Mineirão denunciou ter sido vítima de ofensas racistas e de agressão por parte de um torcedor. Bruna Araújo Campos, 37, usou as redes sociais para contar que foi chamada de “lixo” e “macaca” pelo atleticano.

Racismo x Injúria racial

A injúria racial consiste em ofender a honra de alguém valendo-se de elementos referentes à raça, cor, etnia, religião ou origem. Já o racismo atinge uma coletividade indeterminada de indivíduos, discriminando toda a integralidade de uma raça. Ao contrário da injúria racial, o crime de racismo é inafiançável e imprescritível.

Nota da Polícia Civil

“Sobre os fatos registrados no sábado (20), no estádio de futebol em Belo Horizonte, a Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG) informa que a ocorrência foi destinada para a 3ª Delegacia de Polícia Civil Noroeste para a apuração dos fatos. Mais informações serão repassadas em momento oportuno”.

Nota do Mineirão

“O Mineirão lamenta e repudia os casos de injúria racial e importunação sexual ocorridos na partida entre Atlético e Juventude, no último sábado (20), pelo Campeonato Brasileiro.

O trabalho de atendimento, acolhimento, encaminhamento e acompanhamento das vítimas foi feito para todos os casos relatados. O Mineirão também se coloca à disposição das autoridades policiais para auxiliar nas investigações.

Com o apoio dos clubes e de órgãos públicos, o estádio tem trabalhado em campanhas educativas com o torcedor, como a lançada no próprio jogo de sábado. Os vigilantes também receberam instruções de como agir para casos de injúria racial, importunação sexual ou qualquer tipo de discriminação.

O Mineirão disponibilizou um canal de denúncias por Whatsapp, com o intuito de agilizar o atendimento e colaborar com apuração dos fatos junto aos órgãos de segurança. É importante que as denúncias aconteçam para que os responsáveis sejam punidos”.

Edição: Vitor Fernandes
Vitor Fórneasvitor.forneas@bhaz.com.br

Repórter do BHAZ de maio de 2017 a dezembro de 2021. Jornalista graduado pelo UniBH (Centro Universitário de Belo Horizonte) e com atuação focada nas editorias de Cidades e Política. Teve reportagens agraciadas nos prêmios CDL (2018, 2019 e 2020), Sebrae (2021) e Claudio Weber Abramo de Jornalismo de Dados (2021).

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