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Guia completo do Santuário do Caraça: tudo sobre a história, o lobo-guará, os atrativos e como chegar

28/10/2025 às 15h18 - Atualizado em 06/11/2025 às 13h45
Santuário do Caraça tem diferentes atrativos para o turista (Leonardo Fonseca/BHAZ + Amanda Serrano/BHAZ + Santuário do Caraça/Reprodução)

“Só o Caraça paga toda a viagem a Minas”. Essa foi a frase que o imperador Dom Pedro II usou para descrever em poucas palavras o fascínio que o Santuário do Caraça desperta em todos que o visitam.

Entre montanhas cobertas de verde e o silêncio que parece conversar com a alma, o Santuário do Caraça guarda séculos de história, fé e natureza exuberante. Localizado há cerca de duas horas e meia de Belo Horizonte, entre os municípios de Catas Altas e Santa Bárbara, o complexo é mais um dos destinos encantadores de Minas Gerais, onde trilhas, cachoeiras e arquitetura colonial se encontram.

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Ah… e não podemos esquecer das visitas ilustres que passam por ali quase todos os dias: no adro da primeira Igreja Neogótica do Brasil, os hóspedes conseguem contemplar uma família de lobos-guarás de pertinho. Às 19h30, conhecida como a “Hora do Lobo”, os funcionários colocam uma bandeja com frango desfiado para os animais se alimentarem.

“O Santuário do Caraça é um complexo que se tornou um destino turístico do nosso estado. Ele é um complexo de religiosidade com uma biodiversidade muito grande. Ano passado o santuário completou 250 anos e ele é parte importante da história e cultura de Minas Gerais. E para quem quer conhecer, nós oferecemos pousadas com hospedagem, restaurantes, lanchonetes e lojas”, explica Pablo Azevedo, gerente geral do local.

A história do santuário começa em 1770, quando o irmão Lourenço de Nossa Senhora escolhe a Serra do Caraça para construir um eremitério, local em que os eremitas vivem em isolamento, meditação e oração. A identidade do fundador do Santuário do Caraça, no entanto, é envolta de mistérios e contradições históricas. Sabe-se que o irmão Lourenço era português, mas não há registros precisos sobre sua cidade natal, família ou data de nascimento.

Alguns acreditam que ele era simplesmente um frade ou missionário que deixou o convento em busca de isolamento e oração. Outros sustentam que sua verdadeira identidade seria Carlos Mendonça Távora, um nobre português que teria fugido para o Brasil para escapar da perseguição do Marquês de Pombal, após um atentado contra o então rei de Portugal, Dom José I.

Fundação do Colégio Caraça

Depois de comprar a porção de terra cravada na Cordilheira do Espinhaço, única cadeia de montanhas do Brasil, o irmão Lourenço inaugurou, em 1774, uma pequena igreja em estilo barroco e duas alas residenciais. “Nessa época, ele iniciou uma hospedagem para tropeiros e viajantes. Surgia, então, o Hospício de Nossa Senhora Mãe dos Homens”, revela o guia turístico e monitor ambiental do santuário, Luan Lima Ribeiro. Ele explica que “hospício” era o nome que se dava a hospedagens antigamente.

Antes de morrer, o irmão Lourenço reafirmou seu desejo de que o Caraça se tornasse um lugar dedicado à religiosidade e à educação. Em seu testamento, ele doou toda a propriedade ao então rei de Portugal, Dom João VI, declarando que seus bens deveriam ser destinados à instalação de uma residência de missionários, onde se ensinassem letras, artes, ciências e línguas. Em 1821, foi fundado o Colégio do Caraça, com uma primeira turma de 14 alunos.

“O Caraça foi o primeiro colégio imperial do Brasil e chegou a comportar 450 alunos simultaneamente. Ao longos dos seus 148 anos de história, o colégio formou diversos grandes nomes, como o poeta Alphonsus de Guimarães, Olegário Maciel, Augusto de Lima, e dois presidentes da República: Afonso Pena e Artur Bernardes”, destaca Luan.

A própria Coroa Portuguesa visitou o colégio e, como Dom Pedro II disse, “só o Caraça paga toda a viagem a Minas”. Encantado com o local, ele deu uma série de presentes para o santuário, como os vitrais que compõem a igreja, uma obra de arte pintada pelo famoso pintor alemão da época, George Green, e algumas joias que contemplam a Nossa Senhora Mãe dos Homens, que fica no altar da igreja.

Relatos dão conta de que Dom Pedro II teria protagonizado uma história engraçada ao levar um tombo e cair de costas por tentar descer uma ladeira de pedras no colégio. A pedra foi datada e demarcada e se tornou mais uma atração no Santuário do Caraça. “Ela fica próximo à igreja. Tem alguns vergalhões ao redor dela e a inscrição do brasão da Coroa Portuguesa e o nome do imperador”, conta o guia.

Santuário da Caraça recebeu imperador Dom Pedro II
Pedra onde Dom Pedro II escorregou (PBCM/Reprodução)

Primeiro Igreja Neogótica do Brasil

A primeira igreja neogótica do Brasil está situada no Santuário do Caraça. Ela foi erguida 102 anos após a construção da primeira capela do local, uma ermida barroca, que acabou sendo transformada e ampliada. “Um padre francês que visitou o local, também era arquiteto. Ao chegar aqui, ele viu a necessidade de demolir aquela pequena capela que mal comportava o grande número de alunos e construir algo maior. Fez-se então o projeto da primeira igreja neogótica do país”, relata Luan.

A Igreja Neogótica do Santuário do Caraça se destaca por suas torres esguias e pontiagudas, vitrais e rosáceas impressionantes. No frontispício, aparecem o símbolo de São Francisco de Assis, as datas 1775, da sagração da antiga ermida do irmão Lourenço, e 1880, da colocação da imagem de Nossa Senhora das Graças.

A construção utilizou pedra-sabão da região da Cascatona, mármore de Mariana e quartzo local. No interior, os vitrais franceses chamam atenção, sendo o central uma doação de Dom Pedro II. Destacam-se ainda a imagem de Nossa Senhora Mãe dos Homens (Portugal, 1784) e o corpo de São Pio Mártir, o primeiro santo trazido para o Brasil, preservado em cera com detalhes como unhas, dente e um cálice com areia e sangue.

O acervo de arte barroca inclui dois altares (Nossa Senhora da Piedade e Sagrado Coração), dois púlpitos e a tela da Santa Ceia, do mestre Athayde (1828). O estilo gótico, incomum na região, reflete a influência francesa da época. O órgão, construído pelo padre Luis Gonzaga Boavida, também foi inaugurado junto à igreja, completando o conjunto histórico e artístico.

O Padre Paulo Venuto, diretor do Caraça, não só conhecia a história do santuário como também participou de parte dela. Aluno do Colégio do Caraça, ele reforça a importância desse patrimônio que guarda riquezas diversas. “Eu costumo dizer que é santuário nos dois sentidos: santuário religioso e santuário ecológico. Isso tudo faz com que a pessoa que vem aqui se encontre consigo mesma, com Deus, e sai revigorada”, ressalta ele.

Hora do Lobo no Santuário do Caraça

A tradição dos lobos-guarás no Caraça começou em maio de 1982, quando os religiosos notaram que algumas lixeiras apareciam reviradas durante a noite. Desde então, os padres passaram a deixar uma bandeja de carne no adro da igreja, incentivando o animal a se aproximar. A prática continua até hoje, sem alterar o comportamento natural dos lobos, e, conforme os guias do santuário, é uma importante forma de monitorar a saúde e preservar a espécie.

Atualmente, a bandeja de carne é servida às 19h30, conhecida como a “Hora do Lobo”. Apesar do nome, o aparecimento do lobo é um encontro que depende da natureza e pode demorar para acontecer. Enquanto o visitante ilustre não aparece, o santuário promove momentos de informação e educação ambiental.

Museu

O museu reúne peças de mobiliário e artefatos de uso cotidiano que pertencem ao próprio Caraça, alguns datados de séculos passados. O espaço é um dos pontos mais visitados do santuário, atraindo hóspedes e turistas que podem explorá-lo em visitas guiadas ou de forma independente.

Turismo ecológico no Santuário do Caraça

Mais do que um destino de fé, o Santuário do Caraça é onde espiritualidade e natureza caminham lado a lado. Por ali, o turismo ecológico não fica para trás e segue o mesmo espírito: são várias opções para você aproveitar e recarregar as energias, como trilhas para cachoeiras, tanques, piscinas naturais, grutas e picos.

Cachoeira no Santuário do Caraça
O local possui atrativos naturais como cachoeiras e piscinas naturais (Reprodução/Santuário do Caraça)

Hospedagem e Day Use

Para visitar o Santuário do Caraça, você pode escolher entre hospedagem ou day use. Segundo o gerente Pablo Azevedo, as diárias variam a partir de R$ 672 para o casal e incluem a pensão completa, com café da manhã, almoço e jantar inclusos. “São vários tipos de unidades habitacionais que estão disponíveis para atender cada hóspede da maneira que ele preferir”.

Já o day use tem taxa de R$ 35 nos dias de semana e R$ 45 aos finais de semana, os visitantes pagam à parte pela alimentação e tour pelo museu do local. Idoso e moradores de Barão de Cocais, Catas Altas e Santa Bárbara possuem 50% de desconto. Esses moradores também não pagam para visitar o santuário às primeiras quartas-feiras de todo mês.

Horário de funcionamento para o day use: a entrada é a partir das 8h às 15h e a permanência dentro do Santuário do Caraça até às 17h00min. Saída após as 17:30 sujeito a multa.

As reservas na Pousada do Caraça podem ser feitas por meio do telefone (31) 3942-1656, pelo e-mail [email protected] ou pelo site (clique aqui).

Como chegar no Santuário do Caraça?

O complexo está localizado na Estrada do Caraça, km 9, entre os municípios de Catas Altas e Santa Bárbara. Fácil acesso pelas rodovias BR-381 e MG-436, além do da possibilidade de ir por trem (Estação Dois Irmãos – Barão de Cocais).

“O santuários está 55% localizado dentro de Santa Bárbara e 45% dentro de Catas Altas. Nós pertencemos aos dois municípios, mas o acesso é feito por Santa Bárbara. Você pode vir por transporte próprio, rodoviário, ou pelo trem da Vale, que parte da Estação Central de belo Horizonte às 7h da manhã e chega por volta de 8h30/9h nas Estação Dois Irmãos, em Barão de Cocais, e de lá é possível pegar um transfer ate o Caraça”, detalha Pablo.

BR-381 ou MG-436

Se você vai sair de Belo Horizonte, a distância até o Santuário do Caraça é de 120 quilômetros. Pegue a BR-381, sentido Vitória (ES) e siga até o trevo para Barão de Cocais (Santa Bárbara). Siga pela MG-436 via Barão de Cocais. Antes de entrar em Santa Bárbara, vire à direita para o Caraça.

Ou, se você vai sair de São Paulo, a distância é de 700 quilômetros. Pegue a BR-381 até Belo Horizonte (MG), e siga sentido Vitória (ES) até o trevo da MG-436, em Barão de Cocais (Santa Bárbara). Siga pela MG-436 via Barão de Cocais. Antes de entrar em Santa Bárbara, vire à direita para o Caraça.

Agora, se você vai sair do Rio de Janeiro, a distância é de 500 quilômetros. Pegue a BR-040 até Conselheiro Lafaiete (MG), siga o trajeto Ouro Branco – Ouro Preto – Mariana – Catas Altas. Vá no sentido Santa Bárbara – Caraça.

Amanda Serrano

Com experiência nas principais redações de Minas, como Jornal Estado de Minas e TV Band Minas, além de atuação como assessora política, Amanda Serrano é, atualmente, repórter do Portal BHAZ. Em 2024, fez parte da equipe vencedora do Prêmio CDL/BH de Jornalismo.
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