Kalil veta aulas em 2020, promete continuar tentando abrir ‘caixa-preta’ e indica Carnaval fora de época

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Alexandre Kalil foi o primeiro sabatinado na rodada de entrevistas do BHAZ (Moisés Teodoro/BHAZ)

O prefeito de Belo Horizonte e candidato à reeleição, Alexandre Kalil (PSD), afirmou que está descartada a volta às aulas na capital mineira em 2020; disse que o Carnaval na data tradicional está cancelado, mas que a festa pode ocorrer no segundo semestre de 2021 e prometeu que continuará tentando abrir a caixa-preta da BHTrans. Essas e outras informações foram reveladas durante entrevista exclusiva concedida ao BHAZ.

O atual prefeito é o primeiro candidato a participar da sabatina que o BHAZ vai realizar com todos os 15 postulantes a assumir a PBH (Prefeitura de Belo Horizonte) a partir de 2021. Acompanhe a cobertura das eleições municipais em todas as nossas redes e clique no nome do candidato para conferir as entrevistas realizadas:

Kalil também admitiu que não cumpriu – e não cumprirá – a promessa de inaugurar a maternidade Leonina Leonor Ribeiro, na Zona Norte de BH; relativizou a falta de estrutura na UPA Norte e de clareza da PBH quanto a parâmetros para possíveis recuos na reabertura do comércio; e não descartou aumento do valor da passagem de ônibus. “Isso não é pauta, é pauta para janeiro, como vamos estar em janeiro? A cidade vai estar normal?”, afirmou.

Carnaval

Em entrevista ao BHAZ em julho, Kalil sinalizou que o Carnaval de 2021 seria cancelado. “É uma birutice”, afirmou, à época. Questionado novamente, o prefeito disse que não só pretende realizar a tradicional no ano que vem, como aumentar o tamanho da folia – mas, segundo as palavras do próprio, na “hora certa”.

“Vamos fazer um Carnaval, em vez de 4,5 milhões de pessoas, para 5,5 milhões de pessoas. Mas na hora certa, né?! Na data certa, né?! Não vou tirar o Carnaval, uma alegria que essa cidade adquiriu”, afirmou o candidato à reeleição.

Sobre qual seria a data certa, o prefeito se esquivou. “O Rio de Janeiro prevê o Carnaval em julho. Se tiver Carnaval em julho, é porque tem vacina. Aí vamos ter que ir no caminho do Rio, Salvador… Para fazer um Carnaval junto. É uma conversa que vai ter”, disse, antes de reforçar que vai se esforçar para garantir a folia em 2021, mesmo que no fim do ano.

Caixa-preta ainda lacrada?

Kalil admitiu que falhou ao tentar abrir a “caixa-preta da BHTrans”, expressão criada por ele próprio durante a campanha de 2016. “Se não abrimos, vamos tentar continuar abrindo a caixa-preta da BHTrans. O que fizemos lá foram 144 mil documentos enviados, inclusive, à Câmara Municipal de Belo Horizonte [sobre a auditoria]”, afirmou.

Provocado sobre como avaliaria a própria atuação ao comparar as promessas de campanha, Kalil enumerou ações realizadas no transporte público. “[Primeiro], esse prefeito [ele próprio] foi o único que enfrentou as empresas de ônibus e em quatro anos deu um aumento. Segundo, esse prefeito é o único em BH que botou a metade da frota, quase 1.485 ônibus, com ar-condicionado e suspensão a ar, como ele prometeu”, disse.

“[Terceiro], espero que esse prefeito não deixe esse povo em paz e continue lutando. Por que se não fizer essas três coisas, é um bosta de prefeito”, afirmou.

Sobre um possível aumento da tarifa de ônibus para 2021, após descartar o reajuste em um primeiro momento, Kalil disse que “não é pauta”. “Isso não é pauta, é pauta para janeiro, como vamos estar em janeiro? A cidade vai estar normal?”.

‘Circo’

Kalil aproveitou também para cutucar o governador de Minas, Romeu Zema (Novo), quando abordou se ele falhou ao não cumprir a promessa de comprar respiradores. “‘Ah, prometeu respirador’. Não precisou, gente. Não tenho compromisso com erro. Me avisaram: ‘não faz hospital de campanha. Não faz hospital de campanha sabe por quê? Porque se não vai virar aquele circo que fizeram lá”, disse.

“Aquele circo, aquilo é o Guinness Book. Hospital de 700 leitos que nunca deitou um doente. Não tem médico, eles não conseguem médico, você não vai conseguir médico”, complementou ao se referir ao hospital de campanha montado pelo Governo de Minas, no Expominas, que foi desativado sem receber um paciente sequer.

Sem aulas em 2020

Enfático no veto à volta às aulas, Kalil descartou, oficialmente, qualquer possibilidade do retorno de lições presenciais neste ano em BH. “Liberando escola, vamos colocar nas ruas obrigatoriamente 851 mil alunos. Isso é simplesmente uma máquina de contágio quando estamos na bica de uma vacina e praticamente no mês de dezembro. Então temos que trabalhar com mínimo de lógica nisso sem pensar em demagogia pra arrumar voto. Escola é você contaminar os outros”, afirmou.

O prefeito já foi acionado no MPMG (Ministério Público de Minas Gerais) por conta do decreto que recolheu os alvarás das escolas da capital. Um dos acionamentos foi feito pelo candidato à PBH Rodrigo Paiva (Novo) (relembre aqui) e o outro pelo Sinep (Sindicato das Escolas Particulares de Minas Gerais). Mesmo com a pressão, Kalil não determina nem mesmo se as aulas voltarão no início do tradicional ano letivo, em 2021.

“Quem manda é o vírus, quem manda na gente é o vírus. Imagine se no mês que vem, se daqui a dois meses a gente tem uma vacina, acabou o problema todo”, respondeu, quando indagado sobre a data do retorno no ano que vem. Kalil ainda reforçou que a PBH está investindo R$ 14 milhões para realizar intervenções nas unidades educacionais do município para uma volta mesmo sem a vacina.

‘Rindo de quê’

Disparado nas pesquisas de intenção de voto (veja aqui e aqui), o atual prefeito do PSD se tornou alvo de todos os outros 14 candidatos. Questionado se alguma das críticas tem fundamento, Kalil foi irônico e questionou a capacidade dos adversários. “Todas as críticas têm fundamento, a coisa mais fácil do mundo é desconstruir”, respondeu.

“Eu pergunto para a população, quem iria reconstruir uma cidade devastada pela chuva em seis meses? Só pegar os candidatos todos. Quem vai enfrentar uma pandemia, perdendo votos, como o prefeito de BH enfrentou? Então não vamos ser modestos, porque eu não sou”, disse. “Na hora que precisou de ser prefeito dessa cidade, eu fui prefeito dessa cidade”, acrescentou Kalil.

Sobre a estratégia de aparecer no material de campanha com cara séria, o candidato à reeleição afirmou que a ideia partiu dele porque “não é cínico” e não tem motivo para sorrir. “Não é cara de mau, eu não tenho motivo para rir. Alguém tem motivo pra rir? Um prefeito que pega uma tempestade em janeiro e fevereiro e vem uma pandemia em março? Eu estou rindo de quê? Eles, os candidatos, estão rindo de quê? Eu tenho vergonha da população me ver rindo”.

Falta de parâmetros claros

A PBH não deixa claro quais setores serão fechados caso os índices de controle da pandemia do novo coronavírus subam – e qual o tamanho do crescimento é necessário para essa regressão. Questionado sobre essa falta de clareza nos parâmetros, o candidato à reeleição disse que “está muito claro”. “Ele [comerciante] já sabe. O que eu falei da última vez? ‘Olha, gente, vamos abrir com cautela para durar até o Natal'”, respondeu.

“Quem fizer baderna, aglomeração, está arrebentando emprego, vida do comerciante, vida do dono de bar e restaurante, do evento, anunciante… Quem tem que tomar conta da população é a população. Isso está muito claro. Se não estivéssemos na onda verde, estaríamos tranquilamente voltando e… Não troco de roupa para fazer isso”, complementou.

Ainda sobre o comércio, Kalil disse que é “meta de governo” ajudar os trabalhadores do setor. “Está sendo feito um plano. Precisamos ajudar esse povo que nos ajudou, isso é meta de governo. [Vamos nos reunir com comerciantes e] vai vir muita reivindicação e vamos fazer”, se comprometeu.

‘É uma merda mesmo’

Ao abordar a falta de estrutura da UPA Norte – inaugurada em agosto – e o registro de agressões sofridas por trabalhadores, Kalil disse que não tem conhecimento, mas “isso acontece”. “Não tenho conhecimento, mas isso é assim mesmo. Eu não inaugurei porque não inaugurei uma obra em BH porque acho que dá azar. Mas deve ter, na mudança, deve ter faltado alguma coisa. Você lembra como era UPA Norte, né?! E o que virou”, disse.

“É ruim mesmo, tem defeito mesmo. A saúde é uma merda mesmo, mas a melhor merda que tem no Brasil é aqui. Mas deve ter tido… isso não falta. Um cara gritar porque faltou meia hora”, afirmou.

Queda no Ideb

O Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) de Belo Horizonte caiu de 6,3 para 6. Kalil sugeriu que o recuo no desempenho da educação municipal foi causado propositalmente. “A metodologia e quantidade de alunos que, por motivos até políticos, não foram fazer as provas, deu essa queda do Ideb. Houve aí um dedinho político de não deixarem os alunos, que são os que sobem a nota do Ideb… Quase 40 faltaram”, acusou.

Ao ser questionado quem teria feito esse movimento, Kalil se recusou a detalhar. “Foi coisa da época, de sindicato… Isso acontece”. “Ela não caiu, flutuou de 6,3 para 6. Isso quer dizer o seguinte: entre as grandes capitais com mais de 2 milhões de habitantes, estamos em terceiro lugar. Mas é um assunto muito sério, temos que olhar isso e não deixar acontecer mais”, concluiu.

Edição: Thiago Ricci
Thiago Ricci
Thiago Riccithiago.ricci@bhaz.com.br

Editor-executivo do BHAZ desde agosto de 2018, cargo ocupado também entre 2016 e 2017. Jornalista pós-graduado em Jornalismo Investigativo, pela Abraji/ESPM. Editor-chefe do SouBH entre 2017 e 2018; correspondente do jornal O Globo em Minas Gerais, entre 2014 e 2015, durante as eleições presidenciais; com passagens pelos jornais Hoje em Dia e Metro, TVs Record e Band, além da rádio UFMG Educativa, portal Terra e ONG Oficina de Imagens. Teve reportagens agraciadas pelos prêmios CDL, Délio Rocha, Adep-MG e Sindibel.

Rafael D'Oliveira
Rafael D'Oliveirarafael.doliveira@bhaz.com.br

Repórter do BHAZ desde janeiro de 2017. Formado em Jornalismo e com mais de cinco anos de experiência em coberturas políticas, econômicas e da editoria de Cidades. Pós-graduando em Poder Legislativo e Políticas Públicas na Escola Legislativa.

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