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Edifício Maletta: de resistência política a reduto boêmio de BH

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(Isabella Guasti/BHAZ)

Fundado em 1961, o Edifício Arcângelo Maletta é conhecido como centro de boemia e discussão política há mais de 50 anos. Situado bem no cruzamento entre a rua da Bahia e a avenida Augusto de Lima o prédio é testemunha de momentos marcantes da sociedade mineira.

Com 19 andares na área comercial e 31 no espaço residencial, o Maletta tem 319 apartamentos, 642 salas, 72 lojas e 74 sobrelojas. A área residencial do conjunto tem cerca de 1.300 moradores e abriga estudantes organizados em repúblicas, famílias com crianças e idosos.

Além do movimento dos moradores, os corredores do Edifício Maletta fervilham durante a noite com o movimento de jovens que frequentam os bares do edifício.

O conjunto também recebe diariamente mais de 5 mil frequentadores, que buscam serviços de advocacia, costureira, relojoeiro… Lá também sempre tem gente procurando comprar discos usados em sebos ou roupas em brechó.

A construção do Maletta ficou conhecida por ser o lar da primeira escada rolante de BH.

Em conversa com o BHAZ, o historiador e professor da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), Liszt Vianna, conta que, para além da inovação, o prédio tem valor sociocultural. “O espaço é mais notabilizado pela ocupação dele, pela integração com a cidade e com os eventos políticos e sociais que aconteceram por lá”.

O professor relembra que as paredes do Maletta já foram cenário de resistência contra a ditadura que se instaurou no Brasil em 1964. Desde então, o prédio foi palco de manifestações políticas e ponto de encontro de todo o tipo de gente que procurava lazer na capital mineira.

Grande Hotel

Fachada do Grande Hotel em 1930 (Reprodução/Arquivo Público da Cidade de Belo Horizonte)

Para compreender melhor como o Maletta chegou até aqui, é necessário voltar algumas décadas no tempo. Mais especificamente no ano de 1918, quando o italiano Arcângelo Maletta comprou por 300 contos de réis o Grande Hotel e iniciou suas atividades em Belo Horizonte.

O hotel funcionava na rua da Bahia, 1.136, esquina com avenida Paraopeba, atual avenida Augusto de Lima, e, por lá, passaram importantes figuras da cultura mineira, como o escritor Carlos Drummond de Andrade e o modernista Emílio Moura.

Arcângelo Maletta nasceu na região da Calábria, na Itália, em 18 de novembro de 1875, filho de Vicente e Theresa Maletta. Ele chegou ao Brasil aos 14 anos, com outros imigrantes, para trabalhar na cultura do café, em São Paulo, e naturalizou-se brasileiro com o tempo.

Mudou-se para a cidade de Queluz de Minas, região que originou 23 cidades mineiras, onde trabalhou em um hotel e adquiriu conhecimentos do setor. Maletta administrou o Grande Hotel até 1953, ano de sua morte.

Depois, o prédio foi vendido à Cia de Empreendimentos Gerais, que o demoliu em 1957 e iniciou a construção do Conjunto Arcângelo Maletta, em homenagem ao último dono do hotel.

BH Boêmia

Na busca de entender mais sobre a vida que circula no Edifício Maletta, o BHAZ conversou com o síndico do conjunto e ator Amauri Reis, 62. É com um sorriso no rosto e paixão nos olhos que ele fala sobre os primeiros dias em que visitou o Maletta.

Sentado em seu escritório, que tem até uma miniatura do edifício disposta em uma das mesas, ele relembra o início de sua carreira, que se entrelaça com a história do prédio em que trabalha até hoje.

Amauri Reis narra sua história com o Edifício Maletta (Isabella Guasti/BHAZ)

“Eu começo a me apaixonar pelo Maletta em 1979. E eu achava uma loucura isso daqui. Em 79, eu resolvi fazer teatro e as pessoas frequentavam o Maletta. A gente saía da aula e vinha pra cá, porque era um centro de referência da cultura. A Cantina do Lucas era o bar onde todos os grandes artistas vinham depois do espetáculo. Então, a gente vinha para ver os grandes artistas”.

Desde a edificação, os bares do conjunto se integraram à vida cultural da cidade. A Cantina do Lucas, por exemplo, aberta desde 1962, foi frequentada por escritores e músicos como Murilo Rubião, Nivaldo Ornelas, Wagner Tiso e Milton Nascimento. Outra que sempre era vista nos ‘inferninhos’ do Maletta era a mineira Clara Nunes.

O bar é tombado pelo Patrimônio Cultural da Fundação Municipal de Cultura e teve como funcionário Olympio Perez Munhoz, conhecido como Seo Olympio, imortalizado no Guinness Book por ser o garçom que permaneceu por mais tempo em atividade no Brasil.

“A Cantina do Lucas tem uma história incrível, porque é um centro de resistência política também. Então, o Maletta tem essa característica política também. É uma loucura, uma diversidade doida, isso aqui. É sensacional, isso aqui. É meu amor, isso aqui”, afirma o gestor do condomínio.

“O Maletta serviu de palco para resistência política. A ditadura fez do Maletta um lugar de resistência e de luta. Muitas pessoas, denominadas sob a alcunha de esquerda, frequentavam a galeria”, escrevem os pesquisadores Oscar Palma Lima, José Vitor Palhares, Alexandre de Pádua Carrieri e Marilon Emanoel Vasconcelos em artigo sobre o edifício.

Maquete do Edifício Maletta
(Isabella Guasti/BHAZ)

Nas décadas de 1960 e 1980, o edifício reuniu escritores, jornalistas, intelectuais, atores e estudantes. Nos anos 1990, passou a ser alvo de “turismo de ocasião”, recebendo visitas de casais da periferia, figuras boêmias e viajantes.

“Desciam pessoas de todo tipo, de todos os gêneros no Maletta. Tinha travesti, tinha puta. E aquilo era muito novo para mim, porque eu vim de Venda Nova, um menino meio bobo. E eu achava aquilo sensacional, porque era um mundo que estava se abrindo para mim”.

“Outra coisa legal é que às 10h [da noite] o Maletta apagava a luz e virava uma bagunça uma coisa boa. Era uma desorganização organizada. Sempre foi. O Maletta começava com o Lucas, que era top, e ia descendo os bares até chegar em um muquifo. E a gente começava aqui e terminava no muquifo. Era sensacional!”.

Numa mudança de perfil, o edifício “passa a abrigar parte da vida boêmia do centro da cidade com seus cantores, artistas, outros intelectuais, homossexuais, garotas de programa, etc. A diversidade da cidade se
encontrava naqueles espaços, localizando na cidade a vida boêmia de Belo Horizonte, ou pelo menos parte dela”, escrevem os pesquisadores da UFMG no artigo publicado na revista Gestão e Conexões da Universidade Federal do Espírito Santo.

Novos tempos do Edifício Maletta

Depois de anos frequentando o edifício, Amauri decidiu se mudar para o Maletta no ano de 1995.

O síndico comenta que o Maletta passou a ser lar de famílias, crianças e idosos – cenário mais afastado do que se estabeleceu nos anos 60 e 70. Ele afirma que a localização do prédio foi um fator crucial para a mudança. “É um lugar excelente para morar. Essa região não tem assalto, não tem nada. Você anda aqui a noite inteira. Tudo tem aqui perto: farmácia, banco, supermercado”.

Mesmo com os novos habitantes, Amauri garante que a diversidade permanece no Maletta: “a gente recebe qualquer pessoa, todos são bem-vindos”.

Quem é o Maletta?

Foto do Edifício Arcângelo Maletta
(Isabella Guasti/BHAZ)

Hoje existem no mesmo edifício diferentes versões do mesmo Maletta: durante o dia, lojas e restaurantes oferecem serviços cotidianos; à noite, os bares predominam.

“São 642 salas e nessas salas tem de tudo. Tem dentista, psicólogo, advogado, tudo! Essa mistura que o Maletta te proporciona, acho que é uma das coisas mais incríveis. Brechó? Tem! Sebo de discos usados? Tem! Casa de mágica? Tem! É um lugar doido. Doido de bom.”, diz Amauri.

O síndico comenta que em seus treze anos atuando no local, fez mudanças voltadas para a manutenção do local. Os elevadores foram trocados, a fachada foi revitalizada e a parte interna do prédio foi pintada. No entanto, ele afirma ter o sonho de deixar o edifício ainda melhor.

Para ele, o Maletta é casa de todos. “Que as pessoas venham com muito respeito aqui para dentro, que elas sempre serão bem-vindas. Que elas cuidem do Maletta como a casa delas. Isso aqui está de portas abertas para qualquer pessoa que venha com respeito”, finaliza.

Isabella Guasti

Jornalista graduada pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais) e repórter do BHAZ desde 2021. Participou de reportagem premiada pela CDL/BH em 2022 e também de reportagem premiada pelo Sebrae Minas em 2023.

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