A comandante-geral da Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG), coronel Cleide Barcelos dos Reis Rodrigues, afirmou que a corporação não irá recuar no combate à violência contra a mulher durante o velório da capitã da PM Michelle Leão Azevedo, de 41 anos, que morreu nessa segunda-feira (20). O principal suspeito da morte de Michelle é seu ex-companheiro, 3º sargento da Polícia Militar, Eduardo Abner Pereira de Oliveira.
Ao falar sobre a morte da capitã Michelle e de outras mulheres vítimas de violência doméstica e familiar, Cleide afirmou que os casos reforçam o compromisso da Polícia Militar no enfrentamento ao problema. “Nos meus 29 anos de polícia e dois meses, aproximadamente, de comando da instituição, eu aprendi uma coisa: não existe nada mais triste do que a perda de uma vida”, disse.
Segundo ela, essas situações motivam a corporação a continuar atuando contra a violência. “A morte da capitã Michelle, de todas as outras mulheres, em virtude da violência doméstica e familiar contra a mulher, ela nos toca a alma. E ela nos motiva cada vez mais a lutarmos contra esse inimigo invisível e muitas vezes invisível que assola a nossa sociedade”, afirmou a comandante-geral.
A comandante afirmou ainda que a Polícia Militar seguirá trabalhando na proteção das mulheres em Minas Gerais. “Toda a nossa humanidade pode continuar acreditando no firme propósito da nossa instituição de proteger todas as famílias, todas as mulheres do Estado de Minas Gerais”, disse.
Cleide também reforçou que a corporação continuará atuando mesmo diante das dificuldades. “E nós não vamos recuar, mesmo em frente aos maiores desafios, mesmo em meio às maiores dificuldades. Continuem contando com a Polícia Militar”, afirmou.
Veja o que se sabe sobre o caso da capitã
A capitã da Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG) Michelle Leão Azevedo, de 41 anos, foi deixada morta no Hospital Odilon Behrens, em Belo Horizonte, na noite de segunda-feira (20) pelo seu companheiro. O principal suspeito do crime é o companheiro dela, o também policial militar Eduardo Abner Pereira de Oliveira, de 37 anos, que foi preso e permanece em uma unidade da Polícia Militar.
Segundo o boletim de ocorrência, a oficial apresentava diversas lesões traumáticas pelo corpo, incluindo traumatismo craniano, hematomas, ferimentos nos membros, marcas compatíveis com chicotadas e um extenso ferimento na cabeça.
Suspeito alega uso de ecstasy em festa, sexo com agressões e queda de escada antes da capitã morrer
Em depoimento, o 3° sargento Eduardo, suspeito do crime, afirmou que o casal havia consumido bebidas alcoólicas e ecstasy durante uma confraternização realizada na residência do casal, na noite de domingo (19). Segundo a versão apresentada por ele, os dois também praticaram atos de violência física consensuais durante uma relação sexual.
O policial alegou ainda que, horas depois, Michelle teria caído da escada da casa, sofrido um corte na cabeça e recusado atendimento médico. Ainda segundo o sargento, o casal teria adormecido. Ao acordar à noite, ele diz que percebeu que ela não respondia aos estímulos, decidindo, então, levá-la ao hospital.
Durante a perícia realizada no apartamento do casal, foi apreendido um cabo de madeira quebrado que, segundo avaliação preliminar, pode ter sido utilizado para agredir a vítima. Também chamou a atenção dos investigadores o fato de as roupas de cama estarem lavadas e ainda molhadas dentro da máquina de lavar. O celular do suspeito e a substância encontrada no hospital também foram recolhidos para perícia.
Eduardo Abner recebeu voz de prisão e foi encaminhado ao Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). O caso será investigado pela Polícia Civil.
Em nota, a defesa do sargento da PM disse que “é imprescindível que se aguarde a conclusão das investigações e dos laudos periciais, evitando-se qualquer julgamento precipitado. O caso ainda está em fase inicial de apuração, e todas as circunstâncias serão devidamente esclarecidas pelas autoridades competentes”.
Tio de capitã faz apelo para presentes na festa contarem a “verdade”
Márlon Leão, tio da capitã da Polícia Militar (PMMG) Michelle Leão Azevedo, de 41 anos, disse que espera que os amigos que participaram de uma confraternização na noite anterior à morte da sobrinha prestem depoimento e falem a “verdade” sobre o que aconteceu. Em entrevista exclusiva ao BHAZ, ele disse acreditar que a perícia esclarecerá as circunstâncias do caso e defendeu que todos os presentes colaborem com as investigações.
Segundo o familiar, há “muita coisa estranha” envolvendo o caso. Ele citou informações de que a roupa da vítima teria sido lavada e questionou a dinâmica apresentada sobre a morte pelo suspeito, o sargento Eduardo Abner Pereira de Oliveira, companheiro da capitã.
O tio também questionou o fato de a capitã ter sido levada de carro ao hospital pelo companheiro. Segundo ele, um militar treinado deveria ter acionado o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). “A perícia vai mostrar todas as coisas”, afirmou.
“Quero ver essas pessoas da festa, que estiveram lá na reunião, aparecerem. Quero ver elas mostrarem a cara e realmente falarem a verdade, o que é e o que não é”, disse.
Prisão convertida em preventiva e sigilo decretado no caso
A prisão em flagrante de Eduardo Abner Pereira de Oliveira, de 37 anos, foi convertida em preventiva pela Justiça de Minas Gerais nesta quarta-feira (22). A decisão é do juiz Antônio Francisco Gonçalves, da Central de Audiência de Custódia de Belo Horizonte, que entendeu que “a segregação cautelar era necessária para a garantia da ordem pública”, segundo comunicado do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG).
Um dia antes, nessa terça-feira (21), a Justiça também havia decretado sigilo no processo, restringindo o acesso público às informações do caso, decisão que, segundo o órgão, busca resguardar direitos como a intimidade e a vida privada dos envolvidos. Em coletiva de imprensa, o porta-voz da Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG), delegado Saulo Castro, afirmou que a corporação tem “indícios suficientes para o flagrante” por feminicídio, em contraponto à versão de queda de escada apresentada pelo sargento. Segundo ele, a vítima apresentava “pluralidade de lesões” e “uma lesão aparente muito contundente na face”, o que demonstraria, em fase preliminar, o dolo do crime.
Vestígios apagados: apartamento limpo, roupas de cama lavadas e rastro de sangue no prédio
O síndico do prédio onde o casal morava, no bairro Santa Cruz, Dirceu de Oliveira, relatou ao BHAZ que, durante a perícia, equipes da Polícia Civil constataram que o apartamento estava limpo, sem vestígios aparentes de sangue, apesar de moradores terem visto marcas de sangue no corredor, direcionadas da porta do apartamento do casal até a garagem do prédio.
Ao acessar as câmeras de segurança, Dirceu viu Eduardo carregando Michelle “desfalecida” para fora do local, sem saber se ela estava desmaiada ou já sem vida. Na perícia do apartamento, foi apreendido um cabo de madeira quebrado, que pode ter sido usado para agredir a vítima, além de roupas de cama que estavam sendo lavadas, e ainda molhadas na máquina, o que investigadores apontam como possível tentativa de ocultar provas. O celular do suspeito e a substância encontrada no hospital também foram recolhidos para perícia.
Passagens anteriores por violência doméstica e histórico disciplinar na corporação
A Polícia Militar confirmou, em coletiva, que Eduardo já havia sido acusado de agredir e descumprir uma medida protetiva contra uma ex-companheira: um boletim de ocorrência por violência doméstica em 2014 e uma nova passagem, em 2016, por descumprimento de medida protetiva.
Ele também havia sido preso em 2023 por embriaguez ao volante. Eduardo ingressou na corporação em 2009, mas foi exonerado por ter omitido em formulário de idoneidade moral que havia cumprido medida socioeducativa na adolescência por porte ilegal de arma.
Ele reverteu a expulsão na Justiça: em 2014, a 3ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça de Minas Gerais determinou sua reincorporação, sob o entendimento de que o fato, ocorrido quando ele era adolescente, não configurava antecedente criminal. A decisão também obrigou o Estado a pagar a Eduardo toda a remuneração referente ao período em que ficou afastado.
Relatos de relacionamento abusivo e alertas ignorados pela vizinhança
A mãe de Michelle disse em depoimento que a filha vivia um relacionamento marcado por controle psicológico e humilhações, com separações e reconciliações. Segundo ela, Eduardo chamava Michelle reiteradamente de “vagabunda”, exercia forte influência sobre suas decisões e chegou a ficar em frente à casa da família da vítima, em comportamento que ela descreveu como obsessivo.
A capitã teria confidenciado a familiares que considerava o marido narcisista e relatado um episódio em que ele teria empunhado uma faca contra ela durante uma discussão. Vizinhos também perceberam sinais de uma relação conturbada: o síndico Dirceu contou que o casal promovia festas de até quatro dias seguidos no apartamento e que, embora ouvisse discussões marcadas por gritos e desprezo verbal de Eduardo, moradores tinham receio de denunciar por ele e Michelle serem autoridades, mesmo após denúncias anônimas feitas à Corregedoria da PM.
Para evitar conflitos diretos com o sargento, Dirceu afirmou que adotava uma estratégia própria: “Eu buscava tratar ele quase como uma criança. Elogiava ele.”
Violência contra mulher em BH
Este é o quarto caso de violência contra mulher em Belo Horizonte nos últimos três dias. Os registros envolvem dois feminicídios consumados e um tentado em diferentes regiões da capital.
Entre os casos estão a morte de Stifanie Firmino Silva, de 35 anos, encontrada dentro do apartamento onde morava, a morte da capitã da Polícia Militar Michelle Leão Azevedo, de 41 anos, e o episódio de uma mulher de 31 anos que sobreviveu após ser arremessada da sacada de um imóvel pelo companheiro.
Caso Stifanie – mulher encontrada morta em apartamento no bairro Camargos
Stifanie Firmino Silva, de 35 anos, foi encontrada morta na segunda-feira (20), dentro do apartamento onde morava, no bairro Camargos, na região Oeste de Belo Horizonte.
Imagens de segurança registraram o momento em que André Junior Silva de Carvalho, de 24 anos, suspeito do crime, deixou o imóvel com malas e mancando. Ele foi preso nesta terça-feira (21), após se entregar voluntariamente, e confessou o crime.
A Polícia Civil investiga a possibilidade de que o homem tenha saqueado o apartamento da vítima. Após prestar depoimento no Departamento de Investigação de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), André foi levado pelos policiais para reconhecer pertences que teriam sido furtados.
A investigação também apura as circunstâncias da morte, após amigas e vizinhos perceberem mudanças no comportamento de Stifanie antes de ela ser encontrada sem vida.
Caso mulher jogada pela sacada no bairro Jonas Veiga
Uma mulher de 31 anos foi socorrida após ser arremessada da sacada de um imóvel pelo companheiro na manhã desta terça-feira (21), no bairro Jonas Veiga, na região Leste de Belo Horizonte.
Segundo a Polícia Militar, a vítima caiu do terceiro para o segundo andar da residência e sobreviveu. Ela foi encontrada pelos militares caída no local, parcialmente despida, com o sutiã rasgado e com intenso sangramento na região da cabeça.
O homem, de 30 anos, foi preso em flagrante por feminicídio tentado, dano qualificado e desacato. De acordo com a PM, uma amiga da vítima relatou que o suspeito teria agredido a mulher com garrafas de bebida alcoólica, além de socos e chutes, antes da queda.
A testemunha também afirmou que tentou intervir e acabou sendo agredida. A vítima foi encaminhada pelo Samu ao Hospital João XXIII, onde permanece internada em observação. A versão dela ainda não foi registrada devido ao estado de saúde.
Caso idosa agredida por marido no bairro Serra
Uma mulher de 64 anos foi agredida pelo marido, de 65 anos, na manhã desta quarta-feira (22), no bairro Serra, na região Centro-Sul de Belo Horizonte. Segundo a Polícia Militar, o suspeito fugiu antes da chegada dos militares e, até o momento, não foi localizado. A ocorrência foi registrada por volta das 8h10, na rua Ramalhete.
De acordo com o relato da vítima aos policiais, ela foi agredida com socos e chutes no rosto, além de ter sido enforcada e ter a cabeça batida contra a parede e o chão. A mulher apresentou hematomas na face, no pescoço e na orelha. Ela também relatou sentir dores na clavícula esquerda, sem fratura aparente.
Ainda segundo a vítima, o companheiro tem diagnóstico de esquizofrenia, mas se recusa a fazer tratamento e utilizar medicação. Ela informou também que o homem já teria agredido os filhos em outras ocasiões e que vinha sofrendo ameaças recorrentes, temendo pela própria integridade física.
O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) foi acionado e encaminhou a mulher para o Hospital Ipsemg. A ocorrência foi registrada e encaminhada para as providências da Polícia Civil. Até o momento, o suspeito segue foragido.










