Home Especiais [Bhaz em série] Guaicurus não é só sexo, diz pesquisadora da UFMG – Sexo em BH, parte 7

[Bhaz em série] Guaicurus não é só sexo, diz pesquisadora da UFMG – Sexo em BH, parte 7

Por Jefferson Lorentz

Memória viva da cidade, a Guaicurus e região já inspirou filme, novela, livros e teatro. O aglomerado de prostíbulos mais famoso da capital também desperta interesse  na academia. Na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), inúmeros são os estudos e pesquisas sobre o local e quem vive na região. O Bhaz conversou com a psicóloga e mestranda em psicologia Karina Dias Gea, para entender um pouco mais daquela realidade, que desperta curiosidade e também preconceito.

O cliente que vai aos hotéis da Guaicurus quer somente sexo?

Muitas vezes esses homens vão aos hotéis de prostituição de baixo meretrício no centro ou nas boates de luxo não só à procura do sexo pago. A relação entre cliente e prostituta algumas vezes vai além do sexo. Algumas afirmam que são ‘um pouco psicólogas’, por conversarem com os clientes. Alguns homens, inclusive, só frequentam os hotéis ou boates, mas não são, necessariamente, clientes.

Algumas prostitutas são especializadas em técnicas como BDSM (sigla de bondage [amarração com cordas], dominação e sadomasoquismo), por exemplo, e atendem clientes que procuram esses serviços. É importante explicar que as prostitutas não são e não devem ser obrigadas a atender todos os clientes que as procuram, assim como não são e não devem ser obrigadas a realizar todos os pedidos. Elas possuem estratégias para recusar algum atendimento e também possuem conhecimentos para atender seus clientes, como qualquer outra profissão. O ‘verdadeiro cliente’ (como elas denominam) é aquele que faz um acordo verbal sobre o que será realizado, o valor a ser pago e respeita isso durante o atendimento.

Embora os clientes não sejam alvo de sua pesquisa, pode-se afirmar que muitos vão ao encontro das mulheres, trans e travestis para viver uma intimidade que não compartilham em suas relações afetivo-sexuais do cotidiano? Há fetiche? Há a figura do cliente viciado, como algumas trabalhadoras dizem ?

Não podemos afirmar isso, pois os motivos são múltiplos e complexos. Simplificá-los seria um erro.  Os clientes, como algumas prostitutas afirmam, são pais, filhos, amigos, namorados, maridos, homens comuns, trabalhadores, estudantes, de todas as classes sociais e tão diversos como as próprias trabalhadoras sexuais, que também são mães, filhas, avós, amigas, namoradas, esposas. Quanto a ser viciado, isso não procede. É querer encontrar algum transtorno nas prostitutas e nos clientes.

Muitas afirmam que a prostituição é atraente porque tem um retorno imediato.  Como percebe esta questão? 

A prostituição é, dos trabalhos marginalizados e desqualificados socialmente, o mais rentável para a mulher, pois os atendimentos são pagos em dinheiro, o retorno de um dia de trabalho é imediato e, geralmente, alto. Contudo, o dinheiro desse trabalho não fica só com a prostituta, pois, muitas vezes, ela tem que pagar o aluguel do quarto do hotel, o valor do motel, os espaços utilizados para realizar o trabalho laboral; comprar camisinhas, gel lubrificante e outros produtos fundamentais para realizar com segurança e higiene os serviços; investir nos seus corpos como produtos de beleza, em roupas e em cirurgias com o objetivo de atrair clientes. Além disso, essas mulheres ajudam outras pessoas com sua renda, como filhos e familiares; pagam a mensalidade de suas universidades ou a escola/universidade dos filhos; pagam contas e sustentam um lar. No caso das travestis e mulheres transexuais que são prostitutas, há um investimento grande e cotidiano para a construção e manutenção de uma identidade feminina por meio das técnicas de estética, produtos de beleza e modificações e construções corporais (como cirurgias), que também são requisitos para o exercício da prostituição. Logo, é imprescindível considerar que, mesmo que a renda mensal da prostituta seja alta, essa será comprometida com seus gastos cotidianos, seus investimentos na própria atividade laboral e também a ajuda ou gastos com outras pessoas com quem possuem um vínculo afetivo ou familiar.

Outro aspecto que devemos considerar para analisar a renda das prostitutas é que elas possuem poucas garantias trabalhistas, são marginalizadas, encontram-se na informalidade e, consequentemente, têm uma grande instabilidade na renda. Além disso, essa atividade pode render um bom acúmulo de capital em um período muito curto, principalmente para as travestis e mulheres transexuais, pois a instabilidade na remuneração dessas profissionais aumenta com o passar do tempo, sendo praticamente inviável uma construção de plano de carreira a longo prazo.

Cabe destacar que a putofobia, principalmente quando essa está relacionada também com a transfobia, podem inflacionar seu custo de vida, pois enfrentam muitas dificuldades no acesso a direitos, bens e serviços que deveriam ser garantidos a todos. Ou seja, uma renda alta para uma prostituta não necessariamente implica em um poder aquisitivo igualmente alto e acesso a direitos, bens serviços e a um bem-estar comparável ao restante da população com igual renda.

O que separa as mulheres da Guaicurus das que têm o mesmo trabalho, embora em outras condições, em boates e sites também? 

Há uma diversidade grande de mulheres que são prostitutas, tanto nas próprias boates, nas ruas e em sites. Existe uma hierarquia entre esses territórios, mas uma mesma prostituta pode realizar seus trabalhos em mais de um desses territórios, ou seja, a prostituta de rua pode atender pelo site também. O que acontece é que geralmente as prostitutas de luxo são mulheres que investem e mantêm uma estética, um padrão de beleza: são magras e, na sua maioria, brancas e jovens. Encontramos mulheres nesse padrão nas ruas ou hotéis, mas a maioria das prostitutas de baixo meretrício são negras e mais velhas, por exemplo. Como expliquei, esse trabalho tem uma carreira curta. Então, quando são jovens e estão dentro dos padrões de beleza, é mais fácil o retorno financeiro, pois conseguem ocupar locais mais seguros, que pagam melhor os programas, seja no hipercentro ou nas boates.

Região da Guaicurus constitui o que é denominado “zona boêmia” de Belo Horizonte, onde está a prostituição de baixo meretrício (Maick Hannder)

Há diferença entre os termos prostituta, puta e garota de programa? 

Sim. Essas classificações e termos que usamos demonstram como a pessoa compreende esse campo, pois são terminologias em disputa, até mesmo dentro do movimento organizado das prostitutas brasileiras. O termo “puta” é compreendido e utilizado como xingamento, desqualificação, pois classifica as mulheres entre putas e santas. Assim, é utilizado para marcar as desviantes ou até para nomear momentos de raiva. Devido ao estigma, tanto elas quanto pesquisadores, igrejas, ONGs e outras pessoas tentam amenizar e utilizam termos como “meninas”, “garotas de programa”. Com a organização das mesmas, elas começam a utilizar termos como “profissionais do sexo” ou “trabalhadoras sexuais” para se afirmarem como trabalhadoras na luta pelo reconhecimento da atividade laboral, a regulamentação da profissão e a garantia de direitos trabalhistas. Depois ocorre a afirmação, dentro do movimento, de terem orgulho de exercerem a prostituição. Assim, tanto elas quanto eu adotamos, preferencialmente, a terminologia ,’prostituta’ para descrevê-las.

Mas a palavra “zona” não causa incômodo a elas. 

Emprego a categoria ‘zona’ para designar essa região considerada a ‘zona boêmia da cidade’, pois é assim que as entrevistadas a nomeiam. Além disso, no Brasil esse termo é sinônimo de áreas que concentram a modalidade de prostituição de baixo meretrício.

Durante a sua pesquisa, chegou a conversar com quantas mulheres da Guaicurus e em qual  período? 

Eu fiz uma pesquisa na Guaicurus com mulheres e depois, nas ruas, com as  travestis e as mulheres transexuais. Bem, não sei quantificar as mulheres. Mas, são muitas e, desde 2011, mantenho contato com o campo. Faço entrevistas formais, informais, faço observações participantes, ajudo a organizar eventos, subo nos hotéis para distribuir camisinhas e gel lubrificantes.

Você diz que no Brasil, apesar da profissão ser reconhecida como ocupação, figurando na CBO (Classificação Brasileira de Ocupações), as profissionais não têm nenhum direito trabalhista. 

No Brasil a prostituição é considerada como uma ocupação profissional; possui poucos direitos trabalhistas e não há uma regulamentação que garanta novos direitos a essas profissionais. Devido ao estigma e à marginalização, está vinculada à informalidade, o que expõe as trabalhadoras a situações de violência, chantagem, extorsão e à existência de pouco espaços com boas estruturas e segurança para o exercício laboral. Muitas se declaram autônomas, pagam INSS, mas poucas sabem sobre os direitos trabalhistas que possuem. Com relação à prostituição, ela está mais descrita no Código Penal, o que torna inviável a possibilidade de pagamento de direitos trabalhistas, por exemplo, entre prostituta e dono do hotel, já que tudo em seu entorno é considerado ilegal. O movimento de prostitutas fará 30 anos de luta e pouco foram os avanços. Precisamos visibilizar as experiências e as demandas dessas trabalhadoras, para que a atividade laboral conquiste mais direitos e avanços em benefício dessas profissionais.

Leia as outras reportagens do [Bhaz em série] sobre o mercado do sexo em BH

Parte 1 – Mistérios da Guaicurus 

Parte 2 – Fantasias e fetiches

Parte  3 – O sobe e desce de travestis e homens

Parte 4 – Um mercado também em crise

Parte 5 – Sexo, luxo e muitas histórias

Parte 6 – New Sagitarius, ícone de uma época

 

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Jefferson Lorentz

Jefferson Lorentz

Jeff Lorentz é jornalista e trabalhou como repórter de pautas especiais para o portal Bhaz.

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