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Edifício JK: história e curiosidades do icônico gigante de Belo Horizonte

27/01/2025 às 11h10 - Atualizado em 08/02/2025 às 10h19
podcast síndica Edifício JK
Conjunto JK, uma construção emblemática e histórica de Belo Horizonte (Amanda Serrano/Reprodução)

Erguendo-se como uma cidade vertical, o Conjunto Governador Juscelino Kubitschek, popularmente conhecido como Edifício JK, carrega em si uma atmosfera quase bucólica que se mistura à paisagem urbana de Belo Horizonte. Projetado por Oscar Niemeyer na década de 1950, o edifício vai além de sua imponência arquitetônica: com dois blocos e 1.087 apartamentos, a construção é um dos prédios mais icônicos da capital mineira, cujas janelas parecem sussurrar inúmeras histórias e segredos daqueles que chamaram ou ainda chamam o JK de lar.

O complexo foi idealizado por encomenda do governador mineiro à época, Juscelino Kubitscheck. De acordo com a professora de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais, Celina Borges Lemos, o intuito do edifício era “consolidar ainda mais a ideia do estado e cidade modernos”. Para a especialista, o JK simboliza as mudanças culturais e urbanas que ocorreram em Belo Horizonte e “tornou-se o marco desenvolvimentista de Kubitschek”. 

O edifício é apresentado como uma referência da arquitetura modernista. Ele foi planejado como um projeto habitacional para atender à crescente demanda da cidade. “O processo de modernização da capital foi dinamizado a partir de 1930, principalmente no início da Era Vargas, com a industrialização e a chegada de novos serviços”. Consequentemente, houve uma migração significativa para BH, que começava a se solidificar como um polo de atividades financeiras e comerciais.

Conceito de cidade dentro da cidade

Paralelamente ao processo de modernização e industrialização, Belo Horizonte iniciou uma renovação urbana, com foco em critérios mais racionais e funcionais. “Entre as mudanças mais significativas estava a revisão do nível de aproveitamento em algumas áreas estratégicas, permitindo maior adensamento”. A ideia do Edifício JK era, então, tornar-se um conglomerado que abrigasse múltiplas funções para otimizar a vida de quem morasse no prédio ou na região. 

Segundo a professora, Niemeyer planejou o edifício para ser muito mais do que apenas uma moradia. A intenção era que o JK funcionasse como uma “cidade dentro da cidade”, abrigando tanto residências quanto uma ampla gama de serviços, como repartição pública, hotel, museu, lavanderia, teatro, cinema, lojas, padaria, confeitaria, salão de beleza, barbearia, piscina e playground.

“Você teria uma continuidade da ideia das calçadas para o interior do edifício com alguns serviços coletivos, como se ele estivesse aberto ao público a qualquer hora. Então, seria exatamente essa proposta de ‘cidade dentro da cidade’. Essa concepção tornaria o edifício um espaço funcional, eficiente e atrativo, servindo tanto moradores quanto visitantes”, afirma Celina. 

Essas construções, porém, nunca foram concluídas devido a uma série de fatores, como mudança de governos e proprietários. “A proposta foi elaborada em 1950, mas o local começou a ser habitado apenas em 1970. Foi uma obra muito complexa, tornou-se um processo longo de discussão, paralisações, interrupções e escassez de investimento. Hoje, o JK não cumpre toda a função para a qual ele foi projetado”.

Planta original do Conjunto JK (Reprodução/vivajk.org)

Edifício JK, um arranha-céu no Centro de BH

O Conjunto JK reúne 1.087 apartamentos de 13 tipos diferentes. São dois blocos, com 36 e 23 andares cada. Em um dos maiores conjuntos habitacionais de BH, onde moram mais de 5 mil pessoas, é possível encontrar habitações de um a quatro quartos.

Voltado para a rua Timbiras, o bloco A possui 23 andares. Já o bloco B, com 36 andares, tem sua fachada direcionada para a rua Guajajaras e se destacou como o prédio residencial mais alto de Belo Horizonte, com quase 100 metros de altura, por muito tempo – hoje o mais alto de BH é o prédio do banco Inter, construído inicialmente para ser da Cemig.

  • Bloco A: rua dos Timbiras, 2.500 – Santo Agostinho
  • Bloco B: rua dos Guajajaras, 1.268 – Santo Agostinho

O que fica perto do Edifício JK?

O Conjunto JK está localizado próximo à Praça Raul Soares, no hipercentro de BH, que se tornou o principal núcleo econômico e histórico da cidade. “Ele seria o mediador entre a grande área Central, marcada pela Praça Sete, a avenida Afonso Pena, com o papel dinâmico que ela criou durante o século 20, e os bairros da região Sul, como o Santo Agostinho e Lourdes”.

Pensado estrategicamente, o JK fica próximo a vários lugares famosos na capital, como o Mercado Central, o Mercado Novo, o Edifício Maletta e a Praça da Assembleia. Ele também fica a poucas quadras do Diamond Mall, do Shopping Cidade, de centros culturais, como o Sesc Palladium, de escolas como o Santo Agostinho, e de muitos, muitos restaurantes.

Vista de um apartamento do JK na época da construção; Praça Raul Soares se destaca na paisagem até os dias atuais (Reprodução/vivajk.org)

O edifício também está bem conectado ao transporte público, com a Estação Lagoinha do metrô sendo a mais próxima. E tem mais: até o futebol ronda o JK. As sedes do Cruzeiro e do Atlético, além das lojas oficiais dos dois clubes, também ficam em ruas próximas ao complexo.

Arquitetura modernista

O Conjunto JK foi projetado para atender às necessidades individuais e urbanas de uma época marcada pela busca de eficiência e inovação. O complexo foi concebido com base nos princípios do modernismo, movimento que priorizou a redução de custos e a eficiência dos processos construtivos, com foco na funcionalidade e na simplicidade.

“O primeiro ponto relevante do JK, que dialoga com essas questões, é o conjunto de plataformas em que as torres estão dispostas sobre um terreno muito amplo”, ressalta a professora. Essa distribuição permitiu a criação de espaços abertos, onde seriam alocados serviços e atividades de lazer que seriam vivenciados pelos moradores e frequentadores.

Construção do JK vista da Praça Raul Soares (Reprodução/vivajk.org)

Os princípios modernistas envolvem simplificação, flexibilização e contenção construtiva, explica Celina. “Esses valores estavam alinhados ao espírito do neoplasticismo, marcado pela busca de fachadas homogêneas e pela utilização de materiais essenciais, como concreto armado e protendido, elementos metálicos e vidro”.

Além da otimização dos espaços — como no caso da variação das configurações dos apartamentos do JK — o modernismo também valorizava a qualidade estética das construções. “O Conjunto JK apresenta uma intensidade e sofisticação no próprio conceito dos pilotis, com pilares projetados de formas inovadoras, como em V, W e em PSI“.

Pilares do Edifício JK (Amanda Serrano/BHAZ)

‘Paredes de vidro’

Celina também destaca o conceito de fachadas livres. “Essa abordagem permite separar a estrutura da vedação, possibilitando a utilização de grandes ‘paredes de vidro’ e proporcionando uma maior transparência nos edifícios. Essa característica contrasta com as alvenarias maciças tradicionais e reforça a conexão entre o interior e o exterior, trazendo mais luz e ventilação para os ambientes”.

A especialista aponta que o uso dos brises de sol é uma alternativa totalmente modernista. Esse elemento arquitetônico reduz a incidência de raios solares e controla a temperatura interna do edifício. “O bloco B possui os brises de sol. E o interessante foi a ideia brasileira de colocar brises de alumínio na vertical. Isso é muito moderno e sofisticado para a época”, enfatiza.

Brises de sol de alumínio (Amanda Serrano/BHAZ)

Uma história a cada janela 

Como um bom livro de suspense, o icônico prédio JK possui mistérios e curiosidades que muita gente anseia para conhecer. A cada página, ou a cada janela, novas narrativas se misturam às camadas de memórias que ecoam em cada andar.

Inúmeras janelas do Bloco A (Amanda Serrano/BHAZ)

Com uma arquitetura robusta, o Edifício JK parece intimidar aqueles que passam por lá. Quando criança, o arquiteto e urbanista Bruno Schreiber, agora com 32 anos, tinha uma impressão definida do prédio. “Morava na região Central de BH, e sempre achei que ele tinha uma cara muito feia, tinha até um certo preconceito”, conta.

Foi apenas durante a faculdade que esse olhar começou a mudar. Ele explica que, ao visitar uma amiga que morava no JK, logo descobriu o encanto escondido por trás da aparência imponente e se surpreendeu com o que encontrou ali dentro.

A paixão foi tanta que o arquiteto decidiu se mudar para o JK. Para Bruno, a solidez da arquitetura, que inicialmente trazia uma sensação de desconforto, agora representa segurança e funcionalidade. “É uma cidade vertical, dividida em dois blocos. Você tem de tudo por perto: supermercado, shopping, restaurante. Para quem vive aqui, o JK é muito mais do que parece ser por fora”, afirma.

Organização e convivência 

Schreiber conta que a faxina é constante, o que ajuda a manter o ambiente sempre limpo e agradável, sem acumular sujeira em lugares comuns. “Todos os andares têm um cômodo de lixo, com um local pra gente descartar esses resíduos, que caem em uma caçamba lá embaixo. Os moradores seguem regras para descarte, evitando itens grandes, de madeira ou vidro.”, explica o morador.

A convivência também é algo que funciona bem. Schreiber revela que as paredes espessas evitam problemas com barulho entre os apartamentos, diferentemente dos convencionais atuais.

Curiosidades

Um fato curioso sobre o edifício é o sistema dos elevadores, que mantém um modelo antigo e não param em todos os andares. “O elevador para entre dois andares. Quando estou indo para o 9º andar, ele para no meio do caminho entre o 9º e o 10º. Aí você desce meio lance de escada para o 9º ou sobe para o 10º”, explica o morador.

Os moradores também contam com um restaurante exclusivo dentro do edifício, localizado na rua Timbiras. “Houve um período em que eu sempre pegava marmitas lá; era prático e acessível”, relata o arquiteto. O espaço não é aberto ao público.

E você sabia que, antigamente, comprar um imóvel no JK não era tão caro quanto hoje? Com cerca de R$ 30 mil era possível comprar um apartamento no local há algum tempo.

O que causou esse aumento no preço? É que o prédio ganhou valorização ao longo dos anos devido à sua relevância histórica, localização privilegiada e reformas que o tornaram os apartamentos mais modernos.

Quadro vivo 

Uma das características marcantes dessa estrutura, segundo explica a professora Celina, era a preservação da visibilidade para a Serra do Curral, considerada desde o planejamento de Belo Horizonte um elemento central na composição urbanística da cidade. O designer gráfico, Rafael Maia, de 40 anos, que comprou um apartamento no JK há 15 anos, define a vista como um “quadro vivo”.

O Edifício JK, projetado por Oscar Niemeyer, destaca-se por integrar interior e exterior com janelas do chão ao teto, permitindo ampla conexão com a cidade, mesmo em apartamentos pequenos, destaca Maia.

Vista do apartamento de Rafael Maia (Jomar Bragança/Divulgação)

Para o designer, seu cantinho no JK é seu “universo particular”. “Eu sou fã do meu apartamento. É lindo, é meu universo particular. É meu acesso à cidade e ao que eu mais gosto dela. Tenho acesso à serra, ao céu, à paisagem, e isso é uma das coisas que mais me atrai, esse quadro vivo emoldurando minha janela.”

Diferentes tipos de apartamentos

O Conjunto JK reúne 1.087 apartamentos de diferentes tamanhos e configurações. O designer Maia mora em um duplex de aproximadamente 55 metros quadrados.

“O apartamento é muito adequado à minha realidade. No início, a cozinha foi uma questão.”, conta Maia. Após algum tempo morando no apartamento sem reformas, o designer fez mudanças, focando no mobiliário desejado.

Apartamento de Rafael Maia reformado (Jomar Bragança/Divulgação)

Você se lembra do relógio do Itaú?

Se você mora em Belo Horizonte, com certeza se lembra do grande relógio luminoso que, desde 1984, adornava o topo da maior torre do Conjunto JK. O emblemático “relógio do Itaú” se destacava na paisagem urbana e era facilmente reconhecido, mesmo à distância. O relógio foi retirado do edifício em 2019.

Relógio estava no edifício desde 1984 (Maira Monteiro/BHAZ)

Durante décadas, o relógio foi um importante ponto de referência. A remoção ocorreu após uma batalha judicial entre o banco responsável pelo relógio e o condomínio, que não aceitava a retirada do símbolo.

A extração foi determinada pelo Código de Posturas da Prefeitura de Belo Horizonte, que considerou o letreiro “uma publicidade irregular”. Logo, o Itaú Unibanco optou por não manter o relógio no edifício. Segundo a instituição, outro motivo para a retirada foi a revisão da estratégia de posicionamento da marca.

Viva JK

O Viva JK é um coletivo que nasceu em 2019 com a proposta central de fazer do conjunto um “patrimônio vivo, harmônico e plural”. O grupo é formado por moradores do JK e colaboradores especialistas de diversas áreas.

Durante a pandemia, a partir do primeiro semestre de 2020, o coletivo ganhou mais projeção – literalmente. Por meio de ações coordenadas pelo Viva JK, a fachada do bloco mais alto, de quase 100 metros de altura, serviu de “tela” para mensagens projetadas durante a quarentena.

As projeções destacaram apoio ao isolamento, críticas a Jair Bolsonaro, um pedido de casamento e, em 2022, mensagens pelo tombamento da Serra do Curral.

Projeções do coletivo durante a pandemia (Maira Monteiro/BHAZ)

Edifício JK, patrimônio cultural de BH

Em abril de 2022, o Conjunto JK ganhou um importante título. O Conselho Deliberativo do Patrimônio Cultural do Município de Belo Horizonte aprovou, por unanimidade, o tombamento definitivo do Conjunto Habitacional Governador Juscelino Kubitschek.

Com o tombamento, os proprietários do Edifício JK ganharam uma série de benefícios. Os principais são a isenção de IPTU, o acesso às Leis de Incentivo à Cultura para inscrição de projetos de recuperação dos imóveis e a transferência do direito de construir. Ela dá o direito de alienar ou de exercer em outro local o potencial construtivo do lote.

Polêmicas

O Edifício JK também tem os seus problemas. No ano passado, moradores denunciaram uma mudança abrupta das formas de pagamento dos condomínios do imóvel, que só poderiam ser feitas em dinheiro.

À época, a novidade surpreendeu os condôminos. Segundo relatos dos moradores, ninguém recebeu um comunicado oficial informando sobre a mudança nas formas de pagamento. A informação tinha sido repassada verbalmente pelos porteiros.

Revoltado com a mudança sem aviso prévio, um morador do JK resolveu pagar o valor integral da taxa de condomínio, cerca de R$ 850, em moedas de R$ 1. A situação escalou para uma discussão e a Polícia Militar foi acionada. Somente após a chegada da PM, os gestores aceitaram a quantia.

Morador paga taxa de condomínio com moedas de R$1 (Reprodução/Redes Sociais)

Cerca de um mês após a alteração, a administração do Conjunto JK voltou a receber as taxas de condomínio por boleto. Segundo os moradores, a gestão não chegou a informar o motivo dos pagamentos em dinheiro, nem a razão para a volta dos boletos.

Ao BHAZ, a administração do JK disse que o caso é de esfera “interna e administrativa” e não comentaria sobre.

Amanda Serrano

Com experiência nas principais redações de Minas, como Jornal Estado de Minas e TV Band Minas, além de atuação como assessora política, Amanda Serrano é, atualmente, repórter do Portal BHAZ. Em 2024, fez parte da equipe vencedora do Prêmio CDL/BH de Jornalismo.
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